O que é Talento ? (segunda parte)
A hora e a vez do Brasil
E a orquestra ia passeando pelo mundo, ao som das melhores valsas vienenses, clássicos de filmes norte-americanos, música escocesa, francesa, inglesa, tangos, rumbas, só sucessos internacionais. Até que, como não poderia deixar de ser, foi anunciada na telinha uma ‘sinfonia brasileira’. Lenita – para quem não a conhece minha mulher – e eu ficamos na expectativa das músicas brasileiras que eles iriam tocar.
Primeira e única mancada da tal orquestra: começou a ‘sinfonia brasileira’ com ‘La Bamba’ que, com absoluta certeza, brasileira não é. Como sabemos, ‘La Bamba’ é do cancioneiro popular mexicano e de domínio público.
Mas, tudo bem...
Depois, veio a ‘Aquarela do Brasil’, de Ary Barroso, o que era de se esperar. Lenita já falava de ‘Garota de Ipanema’, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e outros hits tupiniquins. E eu jurando que a orquestra iria terminar a apresentação, apoteoticamente, com ‘Cidade Maravilhosa’, de André Filho. Aí, veio a primeira surpresa: a terceira música do pot-pourri foi ‘Tico-tico no fubá’, de Zequinha de Abreu.
A quarta e última, outra surpresa, foi ‘Madureira Chorou’, da autoria da dupla Carvalhinho e Júlio Monteiro, acompanhada de um apito de escola de samba, tocado por uma mulher com pinta de austríaca, mas com um talento para nenhum mestre de bateria do grupo especial da Marquês de Sapucaí botar defeito. Isso mesmo, ‘Madureira Chorou’, com a "austríaca" arrebentando no apito, lembrando-me até do falecido Mestre André, da ‘Bateria Nota Dez’ de Padre Miguel.
E o show da orquestra terminando, a platéia em delírio aplaudindo de pé, feliz da vida, e os créditos passando rapidamente pelo vídeo ao som do pranto de saudade em homenagem à vedete de Madureira. O maestro se chama André Rieu, que vocês, com certeza, conhecem...
Por quem chorou Madureira
É aqui que entra Zaquia Jorge. No final dos anos de 1950, eu tinha uns 15 anos. Sempre que passava pelo bairro de Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro, um local de comércio forte, espichava os olhos para a fachada do ‘Teatro de Revista Madureira’, que ficava em frente à estação ferroviária do bairro. Na fachada, eram exibidas várias fotos das vedetes em trajes ditos, então, sumários. Além de bela e talentosa atriz, Zaquia era a dona do teatro e vedete do então chamado teatro rebolado. Usava uns maiôs inteiros cavados, um verdadeiro escândalo na época, mas que, se hoje usássemos o mesmo pano, daria para fazer uns quatro biquínis para as senhoras mais distintas da nossa sociedade.
No dia 22 de abril de 1957, uma fatídica segunda-feira, tradicional dia de folga dos artistas de teatro, Zaquia foi à praia da Barra da Tijuca, então selvagem e deserta, para um banho de mar. Nesse dia, aos 32 anos, Zaquia Jorge, uma belíssima e talentosa morena de sangue árabe, morreu afogada. Mudaram o nome do teatro para ‘Teatro Zaquia Jorge’, que tempos depois fechou as portas, decerto, sentindo a falta da grande estrela.
Era Joel de Almeida quem cantava ‘Madureira Chorou’, batucando em seu chapéu de palha dura esse samba exaltação, esse panegírico post-mortem de Carvalhinho e Júlio Monteiro, lançado para o carnaval de 1958, homenageando a bela Zaquia.
Não me lembrava de Joel de Almeida, tampouco da dupla de compositores. Foram os meus amigos Hamiltom Couto – com ‘m’ mesmo – e José Luiz Aromatis, ambos de Nova Ipanema (Barra da Tijuca – Rio), que gostam e entendem muito da verdadeira música popular brasileira, que encontraram os nomes deles em seus alfarrábios.
O talento faz a diferença
Estas histórias têm tudo a ver com a força irresistível do talento para quebrar barreiras tidas como intransponíveis. Você, por certo, se lembrará de outras, tão inspiradoras quanto estas que lhes contei.
Fechando a matéria, para mim, têm talento aqueles que conseguem, pela força de suas obras, serem eternamente lembrados mundo afora. Os que foram aqui citados acreditaram no próprio talento e conseguiram.
Embora tenhamos muitos talentos para exemplificar, como indiscutivelmente o do maestro André Rieu ou de outros que já são saudade, como Zaquia Jorge, não se pode deixar de relembrar do talento de Sammy Davis Jr., que tinha tudo para dar errado e deu muitíssimo certo.
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