Evolução profunda com amor
Ganha terreno a tentativa de verificar o que é o amor, verdadeiramente, e como funciona. Quando o lagarto foge do menino que passeia pelo bosque, se vale do instinto de preservação para escapar com vida. É amor próprio. O menino, educado, não tem intenção de matar o lagarto e sim de preservá-lo pelo papel ecológico desse animal. É amor fraterno. Se, mal informado, egoísta e orgulhoso, o menino o apedrejasse, poderia estar desejando exibir sua caça aos amigos. Isso também é amor, amor próprio, egoístico, diferente, então, do amor próprio atribuído ao lagarto, isto porque o lagarto (imagina-se) não irá exibir-se entre seus pares como autor de sua própria preservação. Quer dizer, o lagarto não padece do mal chamado orgulho vaidoso. Em uma das circunstâncias, o menino, talvez.
Mas, em todas as situações iremos encontrar o componente amor. É rudimentar, mas é amor. Como rudimentar é o ser humano a caminho de seu crescimento qualitativo.
Há 40 anos atrás, qualquer animal silvestre que atravessasse uma rodovia à frente de uma carroça, jipe ou automóvel, certamente seria caçado. E hoje?
Ali na metáfora menino x lagarto temos, de um lado, o amor construindo, de outro, o amor afetando sua própria colimação. Por isso, na qualidade de seres humanos imperfeitos, estamos na vida para desenvolver o amor. São estágios, alcances, propósitos, tudo num caminho ascendente de amor. Por vezes tropeçamos. Tropeços que permitem perceber como é melhor fazer melhor.
Toda a criação vem passando por estágios de evolução, mas a criatura mais nova e complexa e, por isso, um pouco atrasada na escala, é o homem. Instinto, pois, é uma forma de amor, como também o é o orgulho. O instinto pode levar-nos a matar. O orgulho pode levar-nos a matar. À medida que evoluímos, melhor aprendemos a lidar com o medo e a insegurança, que aguçam o instinto. E vamos dominando o orgulho, que aguça a separatividade.
Como vemos, o amor sob ameaça pode reagir brutalmente. Sob estímulo, depura-se e aperfeiçoa-se.
Não é esse, por acaso, o papel evolucionista da vida? Cadê os dinossauros? Onde os bárbaros?
Não foram embora. Mudaram. Transformaram-se. Sofisticaram-se. A história do homem sob o planeta caminha em paralelos semelhantes.
Já é um pouco diferente quando se trata da intuição. Desde Darwin a ciência vem documentando que as mulheres – e sem nenhuma dúvida também as fêmeas de um grande número de espécies animais – percebem as emoções, os contextos e todos os tipos de informações não verbais periféricas de forma mais eficiente que os machos. A todas as espécies está disponível essa capacidade, mas é nelas (as fêmeas) que melhor se desenvolvem. A explicação é exclusivamente química e física?
Os hormônios, em primeiro lugar e a constituição cerebral em segundo, explicam o “fenômeno” neste lado da dimensão. Algumas das funções de alguns hormônios são acentuar a habilidade dos seres segundo o sexo e função na vida. O estrógeno (feminino), entre outras coisas, atua na capacidade perceptiva, enquanto a testosterona (masculina), entre outras coisas, predispõe à ação. Esse é o trabalho químico. Em favor do físico, somente? Claro que não. Nunca se pode ser reducionista a ponto de pensar a vida apenas aqui onde reina a biologia.
O feixe de fibras nervosas que conecta os dois lados do cérebro feminino, conhecido por corpus callosum, é mais espesso e saliente nas mulheres. Com isso, as habilidades femininas ficam mais amplamente distribuídas através do córtex. Estes circuitos explicam não só a intuição, mas também uma série mais ampla de sensações visuais, aurais, tácteis e olfativas que, como se sabe, contribuem para a percepção que, por sua vez, se integra ao campo intuitivo e que por sua vez capacita a mulher para trabalhos artísticos, delicados, subjetivos, espirituais. Esse é o trabalho físico, genético, contribuindo para capacitar a mulher a mais rapidamente inserir-se no mundo espiritual.
Essa sutileza perceptiva, intuitiva e criadora torna as mulheres também mais sensíveis aos sentimentos e, por decorrência, para o amor. Para além do amor. Assim sendo, também as faz frágeis para as chamadas doenças emocionais, que se manifestam nas pessoas que mais se abalam emocionalmente ante àquilo que deprecia o candidato a ser divino, que somos.
É a composição harmônica da criação e a distribuição das funções partindo do caos para o equilíbrio e do rudimentar para o sofisticado, que intriga os curiosos.
Encontramos Darwin sugerindo que somos gorilas melhorados. Encontramos Freud sugerindo que somos movidos a sexo. Encontramos Descartes sugerindo que existimos para pensar. Estávamos indo bem, mas houve um tropeço quando alguém por orgulho e vaidade quis matar o lagarto desprezando aprender com ele. Alguém protestou por orgulho e soberba: pensar não é papel geral e sim dos tutores. O tutor pensa pelo povo e ensina ao povo o que é certo e errado. Mas, não houve apenas uma espécie de tutores. Eles estavam em lados extremos e a verdade estava no meio.
O lagarto correu para seu esconderijo e o menino ficou decepcionado. Foi o aconteceu com Newton, ao comparar o cosmos com a máquina e ao querer prever-lhe os movimentos. Desde então caminhamos por muitas décadas tentando repetir a frieza das máquinas e o calculismo do autômato não inteligente. A ciência perdeu fantásticas oportunidades de avançar. Ficamos entre a máquina inferior, sediada na natureza, submetida ao homem e entre a máquina superior, sediada no corpo humano, uma e outra separada do que poderia ser a divindade não comprovada e, por isso, descolada das máquinas “conhecidas”.
O lagarto foi cumprir o seu papel na natureza e o homem ficou travando o seu próprio papel no Universo.
Nesse caminhar, esquecemos do espírito e do que ele pode contribuir para o amor. Havia que desligar as máquinas para, no silêncio da paz e do respeito pela vida, ouvir o que o espírito tinha a dizer. Havia que ter sensibilidade para escutar o que o lagarto tinha a ensinar.
Foram e ainda são necessárias discussões e um tempo enorme para convergirem os inúmeros pontos de vista. Já se pode esperar para breve alguns avanços. A totalidade que somos, nada separa. E nada é máquina, só, além daquelas criadas pelo homem, enquanto ensaia fazer melhor consigo mesmo. Estamos numa viagem com bom nível de liberdade para decidir. E vamos aprendendo, a cada estação, e a cada decisão equivocada, que a proposta da criação é o amor. Amor em todos os níveis. Fora dele surgem os equívocos e a necessidade de reaprendê-lo voltando atrás, corrigindo, retomando-o.
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