Hieros Gamos na Psicologia
Hieros Gamos, já abordado em postagens anteriores desta série, simboliza o casamento sagrado, a união da deusa com o deus, a conjunctio superior. É uma imagem arquetípica cuja necessidade psicológica simbolizada neste rito é o movimento da psique em direção à totalidade. O equivalente mais próximo nos tempos atuais é o sacramento do matrimônio num elevado nivel espiritual.
Na alquimia, refere-se a combinações químicas; psicologicamente, se refere à imagem arquetípica da união dos opostos e do nascimento de novas possibilidades. Corresponde a uma condição de totalidade psicológica na qual o ego-consciência e o inconsciente trabalham juntos em harmonia. É o objetivo da individuação que envolve a realização consciente do Self.
Outros termos alquímicos usados por Jung com um significado psicológico muito próximo incluem: unio mystica (casamento sagrado ou místico), coincidentia oppositorum (coincidência de opostos), complexio oppositorum (os opostos incorporados em uma só imagem) unus mundus (união dos mundos) e a Pedra Filosofal.
Já vimos que o termo “Hieros Gamos” deriva das palavras gregas que significam “casamento sagrado” e tem as suas raízes na Suméria há 5.500 anos atrás.
O ritual Hieros Gamos evoluiu até se tornar uma atividade espiritual altamente desenvolvida, na qual permitia ao homem obter o conhecimento divino através da união sexual ritualizada com uma mulher treinada como sacerdotisa. Esta teoria é baseada na filosofia de que o homem é, na sua essência, incompleto e apenas pode atingir a divindade ao casar com os princípios femininos de um modo espiritual e físico, o que desencadeia um estado alterado da consciência no momento do clímax.
A Gnose, o conhecimento superior, fisiologicamente falando, seria o orgasmo ou clímax humano - um breve vácuo mental, uma fração de segundo na qual todos os pensamentos ficam ausentes. Na mitologia, nesse instante de êxtase, no qual a mente fica totalmente vazia, o homem, a mulher podia ver Deus.
Através de um estudo cuidadoso de passagens bíblicas e a análise sistemática do simbolismo herético medieval, concluiu-se que quando Maria de Magdala ungiu Jesus, no momento em que este se sentou para jantar com Lázaro, irmão dela, ela ungiu não só os pés, mas também a cabeça de Jesus.
Pensa-se que este ato de Madalena foi parte de um rito egípcio relativo a Ísis e Osíris, por meio do qual o rei-sacerdote é ungido pela rainha-sacerdotisa em preparação para o seu ritual de união, o Hieros Gamos ou casamento sagrado.
A história de Jesus ainda não foi totalmente contada. Os claros relativos à sua adolescência e juventude, seu matrimônio, sua morte e ressurreição e os seus últimos dias entre os humanos pertencem a uma nebulosa que os pesquisadores estão pouco a pouco descobrindo.
Hieros Gamos e a magia sexual
Aqueles conceitos sobre a vida humana não deixavam, como passaram a deixar, mais tarde, espaços para o preconceito, para a culpa, para o remorso, que tanto contribuíram para o sucesso de Freud.
É preciso afirmar, porém, que sempre existiu o sexo “vulgar” ou profano, que a maioria das pessoas conhece e pratica normalmente, cada dia mais sem significado algum. O sexo sagrado, conforme se pode explicar, envolve todo um ritual de entrelaçamento das energias entre os chakras fortes masculinos e femininos durante a conjunção ampla entre dois iniciados. Durante esta relação, o casal canaliza e amplia suas energias através de seus chakras, desde o Muladhara (Fundamental), na penetração, despertando a Kundaliní (serpente sagrada), florescendo por entre os nadis dos amantes até o Sahashara (Coronário), gerando um fluxo gigantesco das energias telúricas e projetando-as para o universo, ou utilizando estas sobras de energia para a realização de determinados rituais que contribuem para a felicidade (que perdemos quando inventamos a culpa sexual). Veja onde chegamos: os catecismos sugerem que Adão e Eva sentiram vergonha de Deus tão logo praticaram o sexo e então desejaram esconder suas genitálias. Como não havia roupas, usaram uma folha de inhame. Santa Ignorância! Deus determinou-lhes a multiplicação. Como seria ela sem sexo. Mas, a mente ingênua das crianças capta, aceita, mas transforma em tabu.
Através do sexo sagrado o corpo da mulher se torna um templo a ser venerado. E o enlace entre o sacerdote (que assume o papel de um deus) e a sacerdotisa (que assume o papel de uma deusa) adquire uma conotação ritualística capaz de despertar grandes energias e até fazer com que eles cheguem à iluminação (e a orgasmos muito mais fortes e repetidos!): o êxtase terreno, ensaio do êxtase verdadeiro espiritual.
Sexo espiritual
Esta expressão é novíssima, inédita. Na prática atual não inexistente. Sempre ouvimos falar de que anjo não tem sexo e sempre imaginamos que no mundo espiritual não existe o ato sexual. E possivelmente não exista, ao menos desse modo como nós concebemos a prática sexual, profana, com preconceito de coisa suja, como passamos a compreender à luz da cultura religiosa dos últimos séculos, e pior ainda, da forma como tem sido banalizada ultimamente.
Mas, a expressão sexo espiritual não aparece aqui como um coito de espíritos e sim como uma significação gozo de âmbito espiritual, além do físico, com será enfocado.
A primeira diferenciação de abordagem é a afirmação de que o orgasmo obtido por machos e fêmeas em cópula nada mais é do que um ensaio para o êxtase maior, a que têm direito os iniciados em sexo espiritual. Aliás, já dá para ir substituindo a palavra sexo por êxtase, principalmente porque o termo sexo não quer dizer apenas a condição de gênero, passou a ser conceito de relação sexual. Então deixa esta palavrinha complicada de lado. Há um caminho para se chegar ao êxtase em que também a dimensão espiritual esteja contemplada.
Quem tenha tido conhecimento dos rituais de sexo tântrico pode ir prestando atenção naquilo que se segue, pois a fase tântrica está para o sexo espiritual como o orgasmo está para o êxtase. Diferença básica entre estes quatro momentos: o orgasmo surge depois de estimulações de regiões eróticas e se consubstancia por espasmos ou contrações nervosas que trazem grande satisfação aos envolvidos. O sexo tântrico é uma sublimação das estimulações em zonas erógenas de maior vibração, mediante técnicas que se utilizam da manipulação de energias através dos nadis e dos chakras para chegar a satisfações ainda maiores.
O sexo espiritual é apresentado aqui como uma sublimação da prática tântrica ao ampliar os efeitos extáticos para além das regiões erógenas e energéticas, com resposta no corpo astral.
Lembra que falamos em contrações nervosas? Pois bem, onde há participação nervosa há filamento energético, pois a rede neural nada mais é que o sistema de circulação-comunicação de nosso corpo. Da mesma forma como seria insípido e desgastante ensinar as pessoas como se faz sexo pelas vias do corpo biológico, o êxtase espiritual humano não pode ser ensinado pela Internet nem pela televisão. Tem de ser desenvolvido, experimentado, vivenciado, sublimado, iniciado. E os casais perenes a desenvolvê-lo deverão, antes de tudo, possuir a maior identificação espiritual, a maior confiança psicológica e estarem dispostos a doações extremas, durante as quais um só dos dois não poderá ser compensado. É coisa total. Ou é total ou não há. Pode haver gradação de sensibilidade, mas não nulidade. É o caso de maior sensibilidade ou receptividade por parte de um dos envolvidos e, neste caso, cabe ao mais adiantado colaborar para que o outro acompanhe seu estágio. Mas, o constante avançar e a cooperação extrema há de levar, como tudo aquilo que se ensaia com denodo, a os dois alcançarem muitos finais felizes.
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