A
gnose sufocada por Roma
Na
sequência daquilo que conhecemos por primórdios da Filosofia inaugurada pelos
pensadores gregos (e sufocada por opositores representados por adoradores dos
deuses mitológicos) algumas coisas precisam urgentemente serem colocadas nos
seus devidos lugares.
A
nascente Filosofia não era uma religião, questionava o padrão das crenças
populares e certamente contrariava o interesse dos governantes.
Vale
lembrar que a exemplo do que muito ainda acontece nos tempos atuais, os deuses
ditavam as regras para o povo e o faziam pela voz dos governantes que
intitulavam “a voz dos deuses”. Escondidos atrás dos mitos, os poderosos
modelavam o povo, segregavam as liberdades, promulgavam a obediência tácita e
condenavam os “hereges”, uma palavra que prosseguiu em uso por quase dois mil
anos. Hoje, o “herege” é conhecido por opositor ou subversivo. Heresia era
desrespeitar as “ordens divinas” proclamadas pela boca dos reis, imperadores,
faraós.
Todos
os seguidores de Sócrates pregavam a liberdade intelectual e condenavam a
prisão mental representada por uma crença na existência dos deuses mitológicos.
Suas cátedras eram bem recebidas nos meios intelectuais e ganhavam adeptos
mesmo no posterior regime helênico liderado por Alexandre Magno – o Grande e
seus sucessores.
A
cidade de Alexandria, no Egito, fundada em honra a este mesmo Alexandre,
tornara-se a sede da maior e mais avançada biblioteca do planeta à época. E foi
a cidade sede do que nós conhecemos por Gnose – uma alternativa para a
Filosofia por permitir-se incluir questões religiosas nos conteúdos estudados.
Enquanto a Filosofia se proclamava agnóstica – sem admitir e sem repudiar a
existência de Deus, a Gnose se proclamava livre para trazer para seu âmbito
tudo quanto pudesse e ainda possa representar conhecimento – conhecimento
profundo.
Jesus
Cristo por seus discursos ecumênicos era um gnóstico. Transitava por entre os
cristais sagrados das fundamentações religiosas de sua época e chegava à outra
margem do pensar livre ao oferecer visões libertárias para o proceder ético e
amoroso do Ser Humano. Os primeiros sacerdotes cristãos eram gnósticos. A
civilização essênia, cujos gurus e discípulos deixavam crescer os cabelos (a
exemplo do que também aconteceu com Jesus), apesar do rigor de alguns
procedimentos ritualísticos, era uma civilização amante da gnose.
Em
que conflitam as tradições, os dogmas e os rituais religiosos frente à gnose? O
gesso. Ao desamarrar o intelecto humano para que novos saberes sejam incorporados,
os gnósticos quebram o gesso daquilo que não pode ser mudado como defendem os
fundamentalistas de qualquer religião ou filosofia.
Os
tradicionalistas, dogmáticos e ritualistas abrem os livros contendo saberes com
muitos séculos de idade e proclamam que ali está tudo o que o Ser Humano
precisa saber, que ali está tudo o que os deuses e Deus queriam informar ao
povo. Em oposição a esta retrógrada ideologia, os gnósticos continuam buscando
o que mais há para ser descoberto e incorporado ao conhecimento humano,
aprofundando o saber, capacitando as mentes a serem melhor aproveitadas na sua
aproximação com o conhecimento divino.