sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O Papel da Imaginação na Cura (IV)


O princípio de Rumpelstiltskin: diagnóstico

Por Jeanne Achterberg

Em comum com o médico contemporâneo, o curador não-médico tem o privilégio do diagnóstico. E. Fuller Torrey expõe a importância dessa tarefa, denominando-a o "princípio de Rumpelstiltskin", de acordo com o antigo conto de fadas em que a magia surgia quando a palavra correta era pronunciada. De acordo com Torrey, o próprio ato de nomear é terapêutico, transmitindo a confiança de que alguém está entendendo o que acontece. A crença comum é que, se o problema pode ser compreendido ou até nomeado, poderá ser curado. O paciente sente alívio e pode enfrentar o que virá com calma. Só aqueles que estão em posição de grande respeito em qualquer cultura podem realizar a nomeação com eficácia. Devem ter uma determinada visão de mundo em comum com o paciente, e o diagnóstico deve ser relevante para essa visão, para que seja eficaz (como diz Torrey, isso coloca um problema significativo no caso de qualquer tentativa transcultural em psicoterapia; é presumível que isso também se aplique a qualquer tentativa no campo da medicina transcultural).
O princípio de Rumpelstiltskin é vital em qualquer contexto da saúde. Os pacientes anseiam por um diagnóstico que possam aceitar, independentemente do fato de ele não importar nem um pouco para o tratamento.


Fomentando esperança, auto-estima
e reintegração cultural

Os temas mais predominantes na literatura e os mais relevantes para a metáfora que estamos examinando são que o curador popular é bem-sucedido por causa de sua habilidade para dar esperança, reforçar a auto-estima e ajudar o indivíduo desajustado a encontrar uma aceitação satisfatória da comunidade.
Essas qualidades são assinaladas como a falha significativa nas práticas médicas cosmopolitas e como razões de emulação dos comportamentos do curador popular. Há também um pressuposto de que esses esforços. conduzirão a sentimentos de bem-estar, quando não a transformações reais no corpo físico, isto é, eles farão com que a enfermidade melhore, quando não a doença. Outros escritores descrevem o potencial para uma mudança positiva da doença e da enfermidade.
Ness e Wintrob afirmam que a eficácia dos curadores populares está em sua capacidade de capitalizar sentimentos de dependência do paciente, de auto-estima reduzida e ansiedade, quando fazem promessas de recuperação. O ritual terapêutico propõe um plano a ser seguido por toda a comunidade, e todos que participam passam a experimentar um sentimento de controle e propósito. A auto-estima do paciente é aumentada, na medida em que a atividade nele se concentra. E de acordo com esses escritores, quando o curador invoca as forças sobrenaturais, o paciente recebe uma confirmação ainda maior de que ele é digno de ser contemplado com aquele tipo de ajuda.
Weatherhead caracteriza a confirmação da cura pela fé (e, portanto, a imaginação) como uma condição da "confiança expectante". Os curadores populares têm a capacidade de reforçar essa confiança se forem figuras carismáticas ou se sua reputação de pessoas com dotes especiais for do conhecimento do paciente. Quando a confiança volta, o paciente sente-se menos deprimido, mais forte e mais vigoroso - acredita-se que esses fatores estejam associados a uma cura acelerada ou, pelo menos, a uma melhoria da doença.
Torrey cita vários fatores característicos que servem para gerar confiança em todos os tipos de curadores: a jornada ou peregrinação para ir até o curador (neste caso, a distância parece ser importante); a impressão causada pela construção ou edifício e por tudo aquilo que eles contêm; o porte e a conduta do curador, tão característicos; suas credenciais como pessoa experiente; um ar difuso de poder e mistério e até medo.  A estima do paciente aumenta pelo simples fato de estar na presença e receber atenção personalizada de uma pessoa tão impressionante e importante. Os temores e ansiedades dos parentes, que podem ajudar a alimentar no paciente o papel de doente, também se reduzem quando ficam sabendo que a ajuda é iminente.
O desamparo pode ser literalmente letal ou significativamente prejudicial à saúde e ao bem-estar do indivíduo. Mudanças de comportamento muito definidas foram observadas em várias espécies quando confrontadas com uma situação sobre a qual não tinham o menor controle. No plano antropomórfico, essas mudanças poderiam ser descritas com "desistência" e são acompanhadas por evidências de deterioração física. Nos seres humanos, o desamparo está normalmente associado à depressão profunda, apatia e perda de energia, que ocorrem até mesmo antes da manifestação da doença. O ponto essencial do trabalho dos curadores populares é que, quando a esperança ou o controle voltam, são acompanhados por uma melhoria física e no comportamento. Nesse contexto, ao fomentar a esperança, estão oferecendo o dom da cura. Concluímos na próxima postagem.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O Papel da Imaginação na Cura (III)


A imaginação em um ambiente clínico

Por Jeanne Achterberg

O emprego da imaginação no ambiente psicoterapêutico tem uma história longa e rica, e continua em evidência. O trabalho foi amplamente revisto por Anees Sheikh e Charles Jordan, que citam 225 referências, dos primeiros escritos de Freud, Jung e das escolas européias às abordagens de terapeutas modernos. Esse artigo tão erudito merece ser lido integralmente.
As condições tratadas com sucesso pelos comportamentalistas, por meio da imaginação, são aquelas cuja origem se acredita esteja no comportamento ou nos problemas cognitivos. Entre elas estão fobias e ansiedades (medos de cobra, do sexo oposto, de altura, de espaços abertos, de falar em público, de injeção); depressões; condições relativas a hábitos, como obesidade, fumo, álcool e abuso de drogas; insônia; impotência; e "sintomas psicossomáticos".
Como assinalam Sheikh e Jordan, os clínicos estão mais interessados em descrever as aplicações da imaginação do que em realizar um trabalho experimental sólido, para validar "os pressupostos essenciais que subjazem a tais procedimentos".  Por outro lado, os terapeutas comportamentalistas fizeram muitas pesquisas, porém negligenciaram a formulação de uma base teórica. Além disso, mostraram uma tendência de colocar a imagem fora do indivíduo, pressupondo que ela opera sobre o comportamento oculto, como outros princípios operam sobre o comportamento manifesto. É necessário um modelo que possa ser testado e demonstre a validade dos pressupostos comportamentalistas ou defina o papel da imagem sobre o comportamento de outro modo.


A cura pela imaginação como fenômeno cultural

Passamos agora a outra área em que a cura pela imaginação é descrita na linguagem do comportamento e no contexto dos sistemas sociais: ou seja, a ampla área das práticas não-médicas, culturais ou de cura popular. Os etno-psiquiatras têm se mostrado especialmente prolíficos ao delinear as razões pelas quais as práticas funcionam e freqüentemente estabelecem paralelos entre as técnicas do curador nativo e as suas próprias técnicas. Naturalmente, seu enfoque incide em aspectos mentais da doença e, como outros comportamentalistas, eles consideram a imaginação mais adequada às doenças imaginárias (não-físicas) ou como um mecanismo de tratamento. As "teorias psicanalíticas obsoletas e não-provadas... que introduziram tamanho obscurantismo nesta questão... serão cuidadosamente evitadas na discussão que se segue. (...)
Tendo em vista nossos objetivos, classificarei como curadores populares os xamãs, os curandeiros, os chamados bruxos, os benzedores e os pajés índios, bem como curadores religiosos contemporâneos ou que atuam no sentido da fé. No entanto, em qualquer contexto cultural, os títulos podem designar diferentes níveis.
O xamã é especialmente assinalado, ao longo da história, como possuidor da maior perícia em trabalhar com a imaginação.
Ao observarem o mecanismo da cura, os cientistas comportamentalistas e sociais, habitualmente, não reconhecem a diferença entre os curadores, e suas observações são razoavelmente aplicáveis a quem quer que use rituais de cura considerados desprovidos de propriedades medicinais ativas. Prossegue.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O Papel da Imaginação na Cura (II)



O crescente interesse pela imagem

Por Jeanne Achterberg

Os cientistas do comportamento orientados para a pesquisa muito fizeram para analisar a imagem usando métodos da ciência. Durante as  últimas duas décadas, eles empregaram instrumentos estatísticos sofisticados e percepções clínicas engenhosas a fim de trazer a imaginação das fileiras dos temas votados ao ostracismo para a arena da aceitação. Artigos relatando pesquisas e revisões da literatura, publicadas em jornais e revistas, proliferaram em surpreendente quantidade. A maturidade da abordagem e o interesse pelo tema são evidenciados pelas facções que se formaram, apoiando um ou outro quadro teórico.
Grupos profissionais com interesse clínico ou de pesquisa reúnem uma maioria de psicólogos, mas também médicos (sobretudo psiquiatras), arte-terapeutas e músico-terapeutas, especialistas em educação, teólogos e antropólogos. Em psicologia, a imagem tem sido pesquisada da perspectiva do trabalho clínico e da psicopatologia, memória e aprendizagem, percepção e psicologia sensorial. Várias excelentes coletâneas foram publicadas recentemente tentando dar uma visão geral de, literalmente, milhares de artigos e opiniões sobre o tema.
A adequação e o valor da imagem como estudo próprio às ciências do comportamento estão claramente firmados.
Revendo essa monumental quantidade de trabalho, o maior desapontamento é que muito pouca coisa pode ser considerada diretamente relevante para uma metáfora científica da imaginação como curadora. Por outro lado, quando a definição da saúde inclui saúde mental em toda a complexidade, adaptação aos costumes culturais, aprendizado nos limites da própria capacidade, aumento da capacidade de apreciar a arte e desenvolvimento da criatividade, então ela se torna extremamente relevante. Prossegue.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Papel da Imaginação na Cura (I)


Introdução

Por Jeanne Achterberg

O uso da imaginação tem se mostrado fundamental na cura de muitas doenças. Exemplo disso são as técnicas xamânicas e as cirurgias psíquicas.
Os cientistas sociais e do comportamento estudaram a imaginação de várias maneiras. Uma delas consiste em estudar a imagem e seu papel na cognição e na mudança do comportamento.
 
Outra maneira é observar e interpretar o comportamento dos indivíduos em sistemas que usam a imaginação na cura. Esta última envolve trabalho de campo e análises realizadas por sociólogos, antropólogos, psicólogos e psiquiatras interessados em cura transcultural, enquanto a primeira é realizada normalmente em um laboratório ou em um ambiente clínico.
Existem ainda outras abordagens, cuja aplicação e influência são crescentes, são apoiadas pelos comportamentalistas e cientistas sociais que realizam trabalho e pesquisa clínica na área da doença física e se interessam pelas interações entre mente e corpo. Eles relutam em segmentar o "mental" e o "físico", tanto em etiologia quanto em intervenção, mas a maior parte deles trabalha com o modelo médico e a ele se submete. É provável encontrá-los exercendo sua profissão em unidades de reabilitação do coração, centros de tratamento do câncer, em programas de controle da dor, e em núcleos de pesquisa sobre a saúde. Embora a maior parte deles seja mais orientada para a pesquisa do que para a clínica, as ferramentas clínicas empregadas incluem aconselhamento e psicoterapia, estratégias cognitivas de tratamento, alterações do comportamento, biofeedback, hipnose, treinamento da paciência, técnica de meditação e relaxamento e imaginação. Seus interesses de pesquisa, de modo geral, abrangem itens como comportamentos ligados à saúde, etiologia psicológica e correlatas da doença, estratégias de prevenção e intervenção e epidemiologia. A afiliação profissional desses indivíduos ficou conhecida como "medicina comportamental", "psicologia da saúde" ou, em alguns setores, "medicina humanística".
A medicina holística foi deliberadamente omitida das categorias social e comportamental por várias razões. Em primeiro lugar, como é uma designação amorfa, que abrange indiscriminadamente curadores e métodos de cura de todos os tipos concebíveis, é impossível descrever tamanha diversidade. Em segundo lugar, embora aqueles que se consideram praticantes da medicina holística estejam abertos à cura pela imaginação (e, na verdade, apóiam-na imensamente), seu interesse dirigiu-se mais às aplicações clínicas do que à consolidação de uma base empírica. Com exceção da Associação Americana Médica e Holística e das Associações de Enfermagem Holística, a maioria dos grupos não tem a afiliação acadêmica ou profissional.
Independentemente da eficácia ou do vigor de suas intervenções, a medicina holística ainda não deu uma contribuição específica aos esforços científicos nessa área. Segue na próxima postagem.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sentimento de inferioridade leva à crise


A Crise do Homem

As organizações religiosas de quase todo o planeta se propõem preparar o homem (que para elas é impuro, pecador, indigno, presa fácil de Satã, réu) para apresentar-se a Deus (que para elas está no céu, distante, e só acessível no estado espiritual). Fica demonstrada a sua incapacidade de apresentar Deus aos homens. Essas doutrinas nos fazem criaturas inferiores, que precisam da misericórdia, da bênção, do batismo, da senha, da autorização e da condução do guia para adquirir o direito de encontrar o caminho, mesmo sem saber se seremos admitidos e aceitos.

Com isso, as religiões atiram a humanidade dentro dos currais dos líderes, maioria deles corruptos e impuros, no papel de condutores de homens na “guerra” do “bem” contra o “mal”. O que é bem, o que é mal para certas mentes?

O sentimento de inferioridade humano tem levado o povo a uma corrida por outros valores: dinheiro, brilho e gozo, por exemplo. Os valores da alma se turvam. Quem não pode gozar e brilhar porque lhe falta dinheiro, procura o caminho da corrupção oficial, da agiotagem, do tráfico de drogas, do latrocínio, do seqüestro, da prostituição, etc., o lado negro, as trevas do ser humano. Sempre que algo se torna caótico, para muitas doutrinas “isso é coisa do diabo”.

No desejo de preencher o vazio que o diabo “ocupava”, algumas instituições divulgam o quanto de dinheiro é possível guardar quando o diabo deixa de fazer parte do orçamento. Parece nada mudar porquanto o dinheiro continuará saindo da mão antes pecadora.

Mediante a falta do reconhecimento de que somos parcelas divinas – onde, evidentemente, o propalado diabo não pode habitar – nos tornamos, de um lado, reboques de perversas lideranças, de outro lado, nos tornamos ansiosos, violentos, satânicos. Aproveitando a verborragia em vigor nestes bolsões de exploração da boa fé, parece, mesmo, evidente que Satã influi.

É bom não esquecer que foi cultura derivada de Abraão que nos ensinou que Lúcifer foi banido do Céu porque queria ocupar o lugar de Deus. E uma vez tendo caído na Terra, exerce seu domínio sobre os homens (que perderam o status divino). A questão do poder aparece na dualidade do mal contra o bem. Deus é apresentado como algo poderoso, soberano, colérico. O diabo é apresentado como algo poderoso, ardiloso, permissivo.

Não se tem notícia de outra sociedade tão poderosamente violenta, intolerante, materialista e hipócrita, como a que foi educada com base na doutrina que tomou conta da Europa, África, Ásia e as Américas. Apesar dos esforços, o padrão dominante se impõe e tem a Escola e a Mídia como aliados.

Milhões, bilhões de pessoas acreditam no diabo, idealizam-no, percebem-no, dão vazão a sentimentos de pavor, terror, medo, temor, ansiedade, negação, por conta dessa idéia de que somos nulos diante de forças que vêm de fora: a felicidade vem de fora, a cura vem de fora, a sorte vem de fora, a doença tem um culpado, o fracasso tem um culpado, o vício tem um culpado...

(Episódio em 5 atos)

Reprimidos, por esses sentimentos de inferioridade, não valorizamos o ser. Preferimos o êxtase da droga ao êxtase transcendental da meditação.

Botando a culpa no diabo, no governo, no concorrente, no patrão, no empregado, nos nossos pais e até em nossos irmãos e colegas, nos anulamos entregues à impotência, ou reagimos de forma violenta e com prepotência.

Crendo que somos vazios, que tudo de bom ou de mau vem de fora, a cura que buscamos vem de fora. Cremos que o dinheiro é o poder, que ele tudo pode. E quando o dinheiro já não pode, cremos até mesmo que o curador será capaz de produzir um milagre com nossas dores: “Deus dirá uma só palavra e serei salvo, ainda que eu não seja digno que Ele entre em minha morada”.

A energia que renova a vida fica bloqueada. Não nos transformamos. Damos um jeitinho e nos arranjamos.

O ser humano se imagina uma máquina com centenas de outras máquinas a servir-lhe no prazer e na dor. Crê que trocando uma peça, o motor humano estará em ordem. Mergulhamos no empobrecimento espiritual.

O poderoso aliado de Deus, atolado em nossas carnes – o espírito – não é ouvido, não é reconhecido e não age, é boicotado. A nossa comunicação com o Deus, que não está no Céu, e sim em todos os lugares, e a comunicação com os nossos guias espirituais, se dá com o aval de nosso espírito. Essa necessidade transborda em nosso ser. Quando não atendida pelos processos da oração, da adoração, da contemplação, da meditação e da transcendência, ela se manifesta via Santo Daime, fumo, álcool, droga...

E mais: por não acreditar que somos um pedacinho de Deus dentro da natureza maior que também é divina, o homem também busca o excessivo desenvolvimento intelectual e quer substituir Deus, concorrer com Ele. Quem quis substituir Deus, tomar o seu lugar, foi o diabo. Não é isso que nos ensinaram?
        
O Cristo, que foi destituído de sua Igreja no século IV d.C. gastou o verbo e o exemplo: “Eu vim para libertar!” Uma libertação ampla, física, emocional, intelectual, moral, espiritual.

Uma vez desabrochada a liberdade na alma de um homem, de uma mulher, contra eles nada mais podem os demônios e os deuses (caixa baixa). Alcançado esse estágio, nós paramos de acreditar na fatalidade da má sorte, na prisão da pobreza, no castigo da dor, no atrapalho não sei de quem... Olhamos para dentro de nós e vemos Jesus como irmão – porque Ele tanto quanto nós, somos filhos de Deus. E decidimos parar de esperar que o governo faça ou pare de atrapalhar, que o médico cure ou desengane, que o líder conduza ou abra a porta da cadeia... Decidimos agir e melhorar a nossa missão, ampliá-la, dando uma grande contribuição à qualidade do mundo que temos e merecemos.

Quando vemos e fazemos assim, descobrimos que podemos trocar a fofoca pelo diálogo com futuros aliados; podemos trocar a novela ou o noticiário policial pela reunião de crescimento familiar; podemos trocar o papo furado, perigoso destruidor da auto-estima, pelo trabalho comunitário em favor de quem mais necessite.

E assim descobrimos que sempre é melhor:
·            dar que pedir;
·            carregar que ser carregado;
·            servir que ser servido;
·            iluminar que esbravejar contra as trevas;
·            aprender que sofrer por ignorância;
·            amar que mendigar ou comprar o amor;
·            fazer amigos que se desviar dos inimigos que fazemos ou imaginamos;
·            dormir em paz que enfrentar a insônia da culpa e do medo;
·            perdoar que ser perdoado;
·            calar que falar bobagens e mentiras;
·            duvidar do experto;
·            conhecer o hipócrita;
·            ajudar o ingênuo e crédulo;
·            trocar o “acho” pelo “sei”;
·            fazer sucesso no lar que no bar;
·            alegrar-se com o sucesso e não com a desgraça do próximo;
·            ser o equilíbrio que reforçar as estatísticas do caos;
·            ser a onda que se deixar levar por ela;
·            fazer a diferença para melhor.
        

domingo, 26 de agosto de 2012

Esforço dominical


Para Conhecer Deus

Olho para o céu.
Vejo uma estrada luminosa chamada Via Láctea.
Possui 950 quatrilhões de quilômetros.
Leio que existem 100 bilhões de outras galáxias talvez maiores que esta.

Continuo a olhar para o céu.
Descubro que são 2.500 as estrelas visíveis.
Elas se dividem em 88 constelações.
As mais conhecidas são o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e as que dão nome aos signos do zodíaco.

O Sol, 109 vezes maior que a Terra, está a 150 milhões de quilômetros da Terra.
Tem uma temperatura de 5.500ºC.
Leva 200 milhões de anos para dar uma volta completa sobre a galáxia.
Sua luz leva 8’18” para chegar à Terra.

Nossa Terra, com peso de 6,5 sextilhões de toneladas, viaja suspensa no Universo numa velocidade de 9,5km/h.
Uma pessoa que saísse daqui de onde estamos às 20:30 horas, correndo sem parar na direção Oeste, a uma velocidade de 9,5km/h aqui retornaria 175 dias depois, vindo da direção Leste, após ter dado a volta completa ao nosso planeta.

Ao tomar conhecimento desses dados, dá para acreditar num Criador?

Algumas religiões, dentre as quais a Espírita, conhecem algumas das várias leis que contêm a idéia e funcionam como organizadoras, impulsionadoras, provedoras, orientadoras e disciplinadoras de tudo o que existe.
A matéria não é inteligente, apenas obedece a uma programação preestabelecida, responde aos códigos nela introduzidos (as leis) por um Princípio onisciente, onipresente, oni-atuante e oninteligente.
No espírito/consciência dos seres humanos, estão impressas as leis que os espíritas conhecem através do trabalho de Kardec: Leis da Adoração, do Trabalho, da Reprodução, da Conservação, da Destruição, da Sociedade, do Progresso, da Igualdade, da Liberdade, e do Amor/Justiça/Caridade. Estas leis são como que leis morais, leis éticas, ligadas ao pensamento, à vontade, ao comportamento, à atitude e à ação humana. Os budistas e religiosos de outras crenças também têm a sua ética e moral.
Na cultura religiosa de espíritas, budistas e outros mais, a retirada das leis éticas e morais seria como que quebrar todas as regras físicas e organizacionais, por exemplo, da aviação, do tráfego rodoviário, da lavoura de milho, etc. Hoje, quando queima a lâmpada de um semáforo de qualquer esquina urbana já se sabe o que nos espera...
Há, porém, a maior de todas as leis, que é a Lei da Criação. Por ela, estabelecem-se os princípios físicos, químicos, orgânicos, energéticos e todo o metabolismo das criaturas: rochas se transformam em solo; enzimas alimentam células; energia se transforma em matéria e assim por diante.
Até este estágio do conhecimento, se sabe que os princípios de que se compõe a Lei da Criação, são:
·            O conhecimento superior cósmico (não acessível ao homem) ligado aos demais seguintes princípios:
·            A inteligência que está na mente, que é matéria e é energia, interpreta todos os códigos e combinações para que a energia se transforme em informação e a informação se transforme em matéria, tanto quanto a matéria se transforma em informação e novamente se transforma em energia.
·            A perfeição que é o conjunto dos códigos da vida ao corporificar a informação na matéria. Se a inteligência/mente leu o código e passou a informação, a perfeição, na matéria, está assegurada. Logo, a possibilidade da não perfeição não está no código, está na leitura dele.
·            A verdade que é o objetivo da vida. O conjunto de leis, que regem a vida exige respeito à verdade para que a vida aconteça. A vida não é falsa e não se modifica sem a intervenção do conhecimento superior cósmico, que detém o código da vida. A Vida é verdade e nada pode prevalecer sobre ela.
·            A administração que organiza o objetivo da vida se dá através de toda a manifestação emanada do amor: paciência, tolerância, caridade curativa, responsabilidade, solidariedade, como demonstra toda a natureza que conosco interage e se realiza através do amor. A vida é tenra e pede ternura. Logo, a administração do tenro tem de ser pelo amor. Fora do amor não há continuidade da vida.
·            A justiça que separa o bem do mal, que administra a organização do caos em busca do equilíbrio. Os princípios morais e éticos emanam do grande princípio chamado Justiça. Tudo o que causar desarmonia e caos terá de passar pelo princípio da Justiça, impresso nas nossas consciências.

sábado, 25 de agosto de 2012

A Ciência Chegará Lá


Um Grande Mistério que a Bilocação
de Consciência Pode Desvendar

Em 23/08/2012 esteve em Florianópolis o médico pós-graduado em Parapsicologia, Hercole Spoladore, de Londrina-PR, para proferir a palestra intitulada “Bilocação de Consciência” a um restrito círculo de interessados.
Decidido a estudar Parapsicologia aos 73 anos de idade, depois de quase 50 anos de medicina marcados por inúmeros casos de Percepção Extra Sensorial e demais Estados Alterados de Consciência, Spoladore vem reunindo material que impressiona todos quantos estão chegando nesta temática pela primeira vez.
Demonstrou que uma consciência pode deixar o corpo repousando numa cama ou poltrona e projetar-se para qualquer distância e retornar de lá conhecendo o que percebeu ou vivenciou.
Tomando-se a palavra consciência por co-ciência, neste caso, divina, somos levados a pensar que nossos registros conscienciais acessíveis, sub-acessíveis e inacessíveis possam compor aquilo que chamamos de essência, alma, espírito, tido como a porção humana que não finda com a falência do cérebro ou do corpo. Enquanto não se possa ir além nos registros com fundamento científico, isso que agora temos poderia encaminhar-nos para a explicação dos casos de EQM – Experiências de Quase Morte, em que os pacientes dados como mortos retornam à consciência e ainda relatam detalhes dos acontecimentos passados durante sua (quase)“morte”. Enquanto a ciência não se instrumenta para medir determinados fenômenos, somos convidados a imaginar que possam residir nesta porção que não finda na sepultura fragmentos da Ciência do Grande Arquiteto e que as “saídas” do corpo não anulam a mente, pois esta pode ser tomada como software enquanto as sinapses cerebrais seriam o hardware. Comparação um tanto chula, pois o soft sempre dependerá do hard para operar. Mas, as experiências conhecidas narram só raramente ações do soft fora do hard. Na quase totalidade dos casos o soft apenas observa enquanto fora do hard.
Podemos estar a caminho da compreensão de fenômenos hoje encarados como milagres, onde se inscrevem as aparições de santos, as curas por imposição de mãos, benzeduras, simpatias, magia negra, magia branca, cadeias de união, novenas e outras formas de interagir com o Sagrado.
Aliás, o biólogo inglês, Rupert Sheldrake, quando esteve na Amazônia em excursão turística, presenciou a “dança da chuva” dos índios Ianomâmis e ficou impressionado pela presença da chuva pouco tempo depois. Resolveu pesquisar o que ele vem denominado, em seus livros, de campos morfogenéticos, para explicar que muitas mentes sintonizadas numa mesma idéia-mãe geram uma coisa parecida com os raios lasers e que essa energia causa alteração no mundo dos átomos e abaixo deles, como já estuda a ciência quântica.
O trabalho de tantos estudiosos, como Spoladore, decididos a sair do quadrado da ciência clássica para investigar fenômenos que não têm como figurar nas listas dos acasos e menos ainda quando o acaso é inteligente, pode nos levar a entender os primórdios da vida biológica não como algo aleatório e sim como um projeto decorrente de uma idéia-mãe.
Assim sendo, mesmo o corpo humano, que sabemos ser decorrência de um programa cujo mapa nos é dado pelo DNA, pode ser estar submetido a uma segunda matriz desenhada num plano puramente energético, a verdadeira matriz, enquanto DNA e, por extensão, o comportamento das células, moléculas e órgãos estariam submetidos a uma programação que transcende ao homem.
Aí, as bilocações de consciência e outros fenômenos (como os apresentados por Hercole Spoladore e pesquisados por Sheldrake e outros) começam a sair da lista dos mistérios ou acasos para começarem entrar para a lista daquilo que os nossos cinco sentidos e nossa pequeníssima inteligência ainda não podem decodificar totalmente. Mas, podem interessar-se por eles, no mínimo para não perder a oportunidade de questionar um pouco mais as razões pelas quais existe a vida.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A caminho

 

A religiosidade do milênio

 

Esta é uma fala muito mais para ocidentais do que para orientais. Durante séculos procuramos por Deus. Um Deus “Catholos”, universal, onipresente, onisciente e onipotente que nos protege do mal e elimina nossos inimigos. Está nos salmos da Bíblia, no Evangelho e na história do povo hebreu a evocação à guerra, a luta, uma terra prometida e as batalhas e sacrifícios de tantos povos, com a anuência de Deus.

Se nos agrada a idéia de um paraíso na Terra, por que falamos tanto na morte e na destruição? Se a idéia de religiosidade começa na destruição e aniquilamento de nosso semelhante, por que falamos de Deus? Se defendemos a idéia de um só Deus, por que este deve ser o “nosso”? Será que estamos sendo, de fato, religiosos? Não seria mais apropriado sermos irmãos?

Nas Cruzadas, idade média (séc. XI), a humanidade era consciente da sua própria força racional e autonomia. Tentava-se impor a importância da igreja à ferro e fogo. A fé era fanatizada. A morte era sinônimo de purificação e remissão dos pecados daqueles considerados impuros, o que significou uma grande matança de inocentes entre mulheres, crianças e velhos.

Traçando um paralelo entre o período medieval e o período hodierno, verificamos uma transformação radical, no tocante a tolerância, a aceitação dos posicionamentos de outras crenças e povos. Nem precisa muito, basta olhar para os três últimos séculos. Éramos verdadeiros trogloditas só comparados com os terroristas islâmicos que ainda existem.

Hoje, a busca dos valores interiores do homem, a compreensão e a tolerância entre outros povos torna-se possível, mas carecemos de uma visão de mundo mais fraterna e solidária.

O desgaste das relações humanas e seus problemas básicos que não encontram uma solução definitiva como a fome e as epidemias, aumentou a distância entre ricos e pobres. O progresso de nações como a África não é alcançado de forma rápida, as guerras impedem o processo de desenvolvimento.
A pós-modernidade não renega a tecnologia e nem os avanços científicos. O que ela propõe é um questionamento sobre uma forma mais racional de vida. A busca de condições de vida mais saudável em consonância com o divino, com o místico e com a fé em um Deus único, é o ideal deste pós-modernismo. O ser humano do século XXI caminhará para o equilíbrio entre modernidade tecnológica e moralidade a caminho do sagrado da vida.

Este retorno ao sagrado busca curar as feridas da sociedade hodierna, na equalização dos pólos dispares da sociedade: o pobre e o rico, o ético e o corrupto. A experiência religiosa deverá converter sua doutrina para conseguir alcançar este objetivo e não somente ser uma atitude alienante que sirva de instrumento de dominação e imposição de leis e normas de conduta.

O termo religiosidade vem do latim religare que significa vincular, religar, emendar o que se quebrou. Portanto, a proposta de uma nova religiosidade vem da vinculação pessoal do homem com sua origem e destino. A religião deve ser um modelo, um caminho para seguir e não instrumento de fanatismos.

Assim, o holismo é a proposta religiosa de um novo milênio. Todo o mundo deverá unir sua fé e sua doutrina para a conquista da paz. O dialogo inter-religioso não significa a reclusão ou o fechamento dos povos em seu próprio mundo. Lembremos do evangelho de São Paulo: “Examinai tudo e ficai com que é bom”.  Isso inclui a renúncia por algumas religiões de que só elas estão certas.

Portanto, cada pessoa tem uma dimensão profunda em sua realidade, que é um mistério. Cabe a cada ser humano repensar a maneira de vivenciar a fé e como nos conduzimos para a criação do paraíso terrestre sonhado por cada doutrina ou filosofia religiosa.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A pérola

É importante descobrir a pérola

Aproxima-te da aurora.
Para ti nascerá o sol!
Aproxima-te da noite.
Para ti brilharão as estrelas!
Aproxima-te do riacho.
Para ti cantará o sabiá!
Aproxima-te do silêncio.
Encontrarás a Deus.
(L.Vahira)

O verdadeiro êxtase consiste em navegar pela intimidade sagrada de nossa vida. “Como um pescador de pérolas, mergulha fundo à procura da pérola preciosa!”. E lembrar que uma ostra que não foi ferida não produz pérolas. Pérolas são produtos da dor, resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia.
Na parte interna da concha há uma substância lustrosa chamada nácar. Quando o grão de areia penetra as células do nácar, tem início o trabalho destinado a cobrir o grão com camadas que protejam o corpo indefeso da ostra contra o invasor.
Como resultado, uma linda pérola irá se formando ali no interior da ostra.
Uma ostra que não foi ferida, nunca vai produzir pérolas, pois a pérola é uma ferida cicatrizada.
Você já se sentiu ferido(a) pelas palavras rudes de alguém?
Já foi acusado(a) de ter dito coisas que não disse?
Suas idéias já foram rejeitadas ou mal interpretadas?
Já sentiu duros golpes de preconceito?
Já recebeu o troco da indiferença?
Já teve a sensação de que o mundo havia acabado para você?
Já pensou que isso pode produzir pérolas preciosas?
Para produzir pérolas, cubra suas mágoas com várias camadas de amor. Infelizmente ainda são poucas as pessoas que se interessam por esse tipo de sentimento. A maioria aprende apenas a cultivar ressentimentos, deixando as feridas abertas, alimentadas por sentimentos pequenos, não podendo cicatrizar.
Assim, na prática, o que vemos são muitas ostras vazias não porque não tenham sido feridas, mas porque não souberam perdoar, compreender e transformar a dor em amor.
Se necessário, fabrique pérolas você também! 

(Rubens Alves)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sabedoria para Viver

Conceitos

1º conceito
A busca da sabedoria é uma atitude corajosa num mundo adestrado para obedecer a regência dos dominadores. Saber é libertar-se. Logo, viver é saber. O que vem antes?

2º conceito
A liberdade pode ser conquistada à força, pelas armas, incluindo ou não a sabedoria e, talvez, de forma mais rápida, porém não duradoura, significando, muitas vezes, a simples troca de agente aprisionador. A história está cheia de exemplos de povos que lutaram bravamente para se livrar de déspotas e apenas os substituíram quanto à característica e estilo.

3º conceito
Quando decidimos nos libertar através da sabedoria e não das armas, é muito provável que apareçam outros mestres para ocupar o lugar deixado pelos que foram ultrapassados. Quem deve ocupar o trono de nossas vidas? Essa escolha também depende de sabedoria. A vida está cheia de escravos que apenas trocam uma forma de escravidão por outra.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quem sabe esteja aí a matriz



042. Falta Deus à nossa cultura

A série “Cópia ou Matriz”, abordou posicionamentos que acabam sendo verdadeiras ondas e criando verdadeiros paradigmas, ainda que de curta duração. Uma infinidade de erros e contra-sensos, além daqueles mencionados na referida série são cometidos todos os dias por líderes e militantes de grupos defensores de uma nova ordem política, ecológica, social, religiosa. É muito grande, também, a lista dos seguidores dessas ondas. Seguidores cegos, andantes de pelotões guiados sem clareza naquilo que seguem. Apontar esses erros e contra-sensos, tentar corrigi-los requereria um volumoso dossiê e o blog não tem a função de apresentar teses e tratados. Nossa sociedade está carente de luzes, no mínimo, para deixar mais claro quem são os seus guias.
Daremos mais algumas amostras para que o leitor veja quanto um erro nas suas premissas pode ser fértil em conseqüências indesejáveis.
Temos ferrenhos combatentes ao uso da energia nuclear, mesmo para fins pacíficos, contrários a qualquer exploração na Amazônia e a outras modalidades de exploração que poderiam gerar emprego e renda, mas, por via de conseqüência, esses mesmos “do contra” esquecem-se de incluir o ser humano como mais um integrante dos ecossistemas. Separam a física enquanto modalidade de conhecimento teórico e a natureza das suas aplicações práticas, como se uma não decorresse da outra necessariamente.
Estamos cansados de assistir as incoerências desses pensadores e suas torcidas. Para o holismo toda separação estanque entre uma idéia e suas manifestações práticas é nada mais que um abstratismo. Holisticamente falando, o efeito benéfico ou destrutivo dos engenhos nucleares tem de estar arraigado no próprio modus cognoscendi que os produziu. Não dá para ser cego para as relações, muito próximas, entre o conteúdo teorético de uma ciência e suas aplicações práticas.
Uma das áreas mais críticas é a dos serviços de menor qualificação. Em nossa sociedade, durante milênios, o trabalho entrópico (trabalho repetitivo que não deixa efeitos duradouros, como, por exemplo, cozinhar um jantar que será consumido imediatamente) é desvalorizado, e por isto é atribuído às mulheres e aos grupos minoritários. Este é um comportamento típico da sociedade industrial herdado dos tempos feudais e da escravidão. O assustador volume de migrantes clandestinos procedentes de países pobres como mão de obra em cozinhas, lavanderias, padarias, hotéis, restaurantes e construções para serviços considerados de pouca ou nenhuma nobreza, dá bem o diagnóstico dessas barbaridades que se cometem contra o ser humano. Nos mesmos ambientes em que os teóricos brindam e regam suas festas de elevada conta, o garçom que serve a champanhe ganha, por mês, menos que o valor uma garrafa daquela bebida.
Estávamos acostumados e entregar o trabalho sujo aos escravos e hoje substituímos o prato a ser lavado por algo descartável que parará na Natureza e levará 300 anos para se decompor. Tiramos o emprego do serviçal, suprimimos o ato de lavar o que sujamos e castigamos a Natureza com pesados descartes não degradáveis. Sujamos o planeta em substituição ao trabalho do lavador de pratos. Ele custa pouco porque ainda ganha pouco, mas o efeito desse comportamento na Natureza poderá tornar inviável a vida no planeta, não só pelo descarte dos resíduos sólidos, mas também pelos efeitos da indústria química ao usar matéria prima não renovável que se soma à supressão de empregos.
Por conseqüência, naquelas situações em que o emprego existe, o seu ocupante é um estrangeiro negro, pardo, latino, muçulmano, mal pago, sem registro em carteira, anônimo.
Não existiu jamais uma sociedade em que os serviços entrópicos fossem mais valorizados que os outros. Sim, isso é, verdade. Mas, também jamais houve uma sociedade que desprezou tanto os serviços entrópicos como a nossa. Exceto em alguns casos. Nos mosteiros de monges budistas e cristãos, cozinhar é uma honra e limpar as privadas um mérito invejável. Se, dentro de um mosteiro, o trabalho entrópico tem valor, é justamente porque ali não há a sociedade maior e porque ali se dá um outro significado ao trabalho.
Então os nossos erros estão neste modo de prover a família, prover a prefeitura, eleger os legisladores, constituir os pregadores que repassam o ensino da ética. O doutor de gravata passa antes do operário de macacão. Os trabalhos humildes adquirem dentro dos mosteiros um valor espiritual e disciplinar justamente na medida oposta em que no "mundo externo" têm pouco prestígio social e pouco valor econômico. A nossa sociedade valoriza o que tem preço. A desvalorização social do trabalho entrópico não é característica só da sociedade industrial, mas da sociedade humana em geral; inversamente, a sua valorização espiritual é um traço distintivo das minorias espiritualizadas envolvidas em alguma forma de rejeição religiosa do "mundo profano".
"Tradições como o vedanta, a ioga, o budismo e o taoismo assemelham-se muito mais a psicoterapias do que a filosofias ou religiões", é o que se pode  encontrar grafado em algum livro. Vale raciocinar que os erros e contra-sensos desta sociedade que vem desprezando os serviçais desde o feudalismo e desde a escravidão, decorrem da falta de Deus. Se há um traço característico do Ocidente moderno, que o distingue radicalmente das tradições orientais, é justamente o desenvolvimento tecnológico e o abandono da idéia da existência de Deus. Mérito da ciência laica. Demérito das igrejas.
Aprendemos a endeusar o dinheiro e hoje fazemos qualquer coisa para botar a mão nele, trocamos a honra, a liberdade, o futuro de nossa alma por um sacola cheia de notas de 100. Tornamos-nos incapazes de aceitar que Deus não proíbe a riqueza. Deus é muito rico e divide toda a sua fortuna com todos os seus filhos. O problema é que seus filhos não sabem dividir, nem incluir.