segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Me põe na UTI


Para tudo deve haver uma explicação

A pior das ignorâncias é aquela que não quer ilustrar-se, amarra-se em estórias ou lendas de uma época em que nenhum pensador ou profeta tinha compromisso nem mesmo com ele próprio, todos eram poetas, divagavam, sonhavam de olhos abertos e escreviam o que lhes vinha à cabeça e para dar valor aos seus escritos se anunciavam intérpretes de Deus. Isso foi a 3 mil anos. Hoje não tem mais isso.

Pára o bonde que eu quero descer.

Isso é assunto para hoje, ainda.

Convenhamos, que deus é esse que vem desde as alturas de seu cargo de rei dos mundos para conversar com um louco qualquer?

Isto é a primeira parte; a segunda é pior.

Está circulando pelas redes sociais uma gravação na voz da pastora Patrícia, fundadora da Igreja A Bênção é Hoje pela Manhã, anunciando-se pessoa íntima de Deus, infalível nas suas interseções perante o Todo Poderoso e vendendo seus serviços entre as pessoas que a ouvem ou frequentam sua igreja. Não chore, não ria, não esbraveje, fique, no máximo (ou no mínimo), corado, corada.

Ela diz com todas as sílabas que tem procuração de Deus para promover milagres que vão de R$ 300,00 a R$ 1.800,00 por pessoa atendida.

E a milagrosa anuncia o seu telefone (14) 991888526 para quem queira ligar pra ela encomendando um milagre.

Isto é a segunda parte. A terceira é pior.

A mulher está cheia de serviço e de dinheiro. Nem mesmo o imposto de renda ela paga, pois as igrejas são isentas.  

E eu que sempre acho explicação para (quase) tudo, para isso não tenho, mesmo.

O que leva uma pessoa a se anunciar descaradamente íntima de Deus, cobrar por serviços como oração, bênção, milagre e encontrar pessoas que concordem de pagar por isso?

Assim não dá. Me põe na UTI.

Você compreende, agora, porque a Divina Gnose precisa urgentemente assumir o seu papel e fazer terra arrasada com toda a barbaridade que se comete em nome de Deus?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Trava tudo, "tá tudo dominado"


Isso parece linguagem de presídio

E é. É e não é, mas é preciso explicar.

Eu já publiquei aqui e repito agora por necessidade de formar uma linha de pensamento. Se você, leitor, leitora, olhar para a caminhada humana sobre a história e puder comparar isso com o próprio crescimento nosso como seres humanos, vai dar nisso: lá atrás, como crianças, nosso mundo era a mãe, de onde nos chegava a comida, a higiene, o calor, o carinho – éramos o indígena que percebia Deus/Deusa em tudo; na segunda infância, estávamos abertos aos contos, aos mitos, às lendas, às estórias e histórias – éramos doutrinados e “sempre caíamos no sono” ao ouvir uma fascinante estória envolvendo algum mito; como adolescentes começamos a contestar e a rearranjar posições para nosso conforto intelectual – éramos o nascimento de milhares de seitas e religiões antagônicas cada uma com sua tese; jovens, chamados a fazer escolhas e a assumir responsabilidades – éramos buscadores de luzes, investigadores da verdade, nossa e do mundo, com a eclosão de linhas de pesquisa comprometidas com a verdade, com a lógica; adultos, já não podemos mais nos deixar levar por conversa fiada – somos gnósticos a caminho de nos tornar anciãos e plenos.

Aqui entra a linguagem de presídio. Ali na altura da juventude quando as coisas fervilharam, poderosas forças políticas, econômicas e religiosas, as mesmas do “pão e circo para o povo”, esconderam do povo a verdade e passaram a pregar através de cânones e dogmas.

É isso que temos hoje. Quatrocentas religiões garantindo que está tudo dominado e, de fato, está.

Hoje você lê constrangido que o diretor da Ordem de Malta, uma poderosa organização que acha que manda no Papa, foi demitido porque defendeu a hipótese de distribuir camisinhas de vênus para um grupo de risco para o vírus HIV. A Igreja também é contra, mas o Papa aceita a ideia. Quando a ideia sai do plano das ideias, o “tá tudo dominado” é o grito que vem lá do fundo das catacumbas, com rosnar de cães treinados para o ataque, exalando cheiro de mofo e de enxofre.

O caso das camisinhas é uma pontinha do iceberg. Tem toneladas de gelo abaixo da superfície.

Como o pão e o circo ficaram um pouco em desuso, o Coliseu faliu, as mesmas poderosas forças que mataram Jesus e depois o trouxeram para deus de seus cultos, criaram mecanismos continuados desde o século IV quando Constantino quis salvar o seu império através de uma religião católica (universal) e apostólica, isto é, com rigidez apostolar para que ela pudesse aplacar os ânimos libertários do povão.

O episódio de Paris, de 1789, foi nada, apesar de ser todo o começo da libertação com igualdade e fraternidade. Mas, estamos muito longe dos três sonhos parisienses.

Conhecer isso é uma obrigação daqueles que rompem com esse passado terrível, assassino, dominador, mentiroso, traiçoeiro. E só a gnose, por não ter compromisso com nenhuma corporação, é capaz de tocar nas feridas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A bem da verdade


O que é a verdade?

A gnose tem esta particularidade, digamos vantagem sobre qualquer outra linha doutrinária, filosófica ou religiosa: ela não tem fronteiras que a impeçam de avançar no raciocínio de qualquer tese porque não se encontra amarrada a cânones, dogmas, pragmatismos ou fundamentos doutrinários. Ela perpassa o judaísmo, o hinduísmo, o budismo, o cristianismo, o islamismo, o protestantismo, o espiritismo, a teosofia, as doutrinas pentecostais entre muitas outras que circulam nos meios intelectuais, religiosos e sociais da humanidade.

Pensamento livre, consciência livre, ou liberta, poderiam ser definições para esta prática de estudar a vida, a natureza, o homem, Deus.

Se você, leitor, leitora, olhar para a caminhada humana sobre a história e puder comparar isso com o próprio crescimento nosso como seres humanos, vai dar nisso: lá atrás, como crianças, nosso mundo era a mãe, de onde nos chegava a comida, a higiene, o calor, o carinho – éramos o indígena que percebia Deus/Deusa em tudo; na segunda infância, estávamos abertos aos contos, aos mitos, às lendas, às estórias e histórias – éramos doutrinados e nem mesmo caíamos no sono sem que nos contassem uma fascinante estória envolvendo algum mito; como adolescentes começamos a contestar e a rearranjar posições para nosso conforto intelectual – éramos o nascimento de milhares de seitas e religiões antagônicas cada uma com sua tese; jovens, chamados a fazer escolhas e a assumir responsabilidades – éramos buscadores de luzes, investigadores da verdade, nossa e do mundo, com a eclosão de linhas de pesquisa comprometidas com a verdade, com a lógica; adultos, já não podemos mais nos deixar levar por conversa fiada – somos gnósticos a caminho de nos tornar anciãos e plenos.

É isso. Acabou a estória da carochinha, a criança cresceu, os tempos são outros, queremos sentir o sabor da descoberta íntima e isso dispensa intermediários togados ou não, outorgados ou não, pregadores para o deserto. Estamos na urbe, a luz brilha, os caminhos podem ser feitos.  
Viva o adulto quase ancião.

Quem foi Jesus?


A polêmica continuará

Toda análise que se alicerce em teses insustentáveis terá de ser colocada sob suspeita por falta de lógica. As pessoas não estão mais dispostas a ouvir estórias retiradas de lendas ou mitos.

E poucas são as fontes de onde se possa buscar se Jesus Cristo de fato existiu, se foi um homem como todos os demais, se nasceu de Maria e José, como todos os demais judeus, se de fato morreu na cruz, se de fato retornou ao mesmo corpo e se de fato subiu aos céus na posse deste mesmo corpo.

Sim, porque sua condenação teve como primeiro argumento a blasfêmia: seus acusadores pediram a Pilatos que o condenasse por afirmar ser Filho de Deus – quando essa hipótese nem passava pela cabeça dos judeus opositores, visto que as crianças nascem filhas de homens e mulheres, como é a lógica para todos os seres humanos. Ou Jesus não era humano!?

Ainda mais porque diferentemente dos demais condenados à cruz e especialmente diferentemente dos dois outros que também foram crucificados no mesmo episódio, Jesus não teve suas pernas quebradas, como era praxe, e também teve seu corpo recolhido da cruz antes dos demais, a pedido de seu tio, o senador José de Arimateia e também a mando deste mesmo senhor recebeu sepultura honrosa diferentemente dos demais condenados cujos corpos eram deixados ao léu no monte Gólgota como carniça para abutres e cães.

Outro porém para o fato de que no domingo posterior à crucificação de sexta-feira à tarde, o corpo de Jesus não estava mais no sepulcro e, segundo os evangelhos, andando pelas ruas, se encontrando com seus discípulos e familiares, conversando com eles e se alimentando de peixe e mel.

E ainda é preciso colocar mais um porém para as buscas que se destinem esclarecer se de fato ele subiu aos céus na posse do próprio corpo, como se deu isso, para onde teria ido e onde se encontra hoje, pois aquela que se diz a sua igreja prega isso para milhões de fiéis.

Muito superficialmente algumas autoridades religiosas concordam em falar sobre alguns desses mitos, até certo ponto considerados absurdos perante a razão humana.

Uma dessas autoridades foi o cardeal Paulo Evaristo Arns, recentemente falecido em São Paulo. O pesquisador perguntou-lhe:

1 - Quem foi Jesus Cristo?

2 - Por que houve cisma entre judeus e cristãos?

3 - Por que o cristianismo virou uma religião de massas?

4 - Por que Jesus foi crucificado?

5 - Como explicar as contradições entre os quatro evangelhos?

D. Paulo Evaristo Arns, aos 74 anos, como cardeal arcebispo de São Paulo, disse, pela ordem:

Resposta à pergunta 1 - Jesus foi um judeu de sua época, instruído na Torá e observante de tudo o que era fundamental para o povo de Israel. Como outros, ele também possuía uma consciência crítica do seu tempo e não deixou de mostrar o que lhe parecia contraditório na vivência religiosa e social da época. Ele foi um sinal de contradição. Já na primeira pregação pública, na Sinagoga de Nazaré, forma-se o grupo de opositores que tentam matá-lo, mas forma-se, também, o grupo de discípulos que levarão adiante sua obra.

Resposta à pergunta 2 - O ponto crucial foi a aceitação crescente, por parte dos cristãos, da divindade do Messias Jesus de Nazaré. As outras divergências nunca foram um problema muito sério. Os judeus sempre conviveram com a adversidade e a diversidade. Mas a alta cristologia que foi se desenvolvendo entre os chamados nazarenos e que terminou por identificar Jesus de Nazaré como o próprio Deus-Pai-Javé era inaceitável.

Resposta à pergunta 3 - Abrindo para o mundo o tesouro da revelação contida na tradição judaica, o cristianismo só podia conquistar corações. Como não se voltar para “um Deus de compaixão e piedade, lento para cólera e cheio de amor e fidelidade, que guarda seu amor a milhares e tolera a falta, a transgressão e o pecado?” (Êxodo, 34, 6-7). A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus.

Resposta à pergunta 4 - João explicita a causa da condenação no diálogo de Pilatos com os judeus, quando esses afirmam: “Nós temos uma lei e que, conforme essa lei, ele deve morrer porque se fez filho de Deus” (João, 19,7). De fato, no momento da condenação, a concepção de Jesus Deus ainda não é clara para os seus discípulos. Para os judeus é apenas uma blasfêmia.

Resposta à pergunta 5 - Não há contradições no sentido de ensinamentos que se opõem e se negam mutuamente, como se um texto dissesse que Deus existe e outro dissesse que não. Há leituras diversificadas da realidade, pela própria natureza do escrito (gênero literário). Há pormenores redacionais que não coincidem, mas que se explicam conhecendo-se a história das fontes utilizadas, a história da redação e o objetivo do autor diante de seus destinatários.

O rabino Henry Sobel, então com 51 anos, como presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, também concordou em falar para também responder às mesmas cinco perguntas.

Eis as suas respostas:

1 - Jesus foi um judeu, um grande mestre que pregou ideias universais da fé judaica. Nós não o aceitamos como messias porque o Reino de Deus que aguardamos com tanta ansiedade ainda não se manifestou. Não rejeitamos os conceitos de Jesus sobre Deus. A questão crítica é a doutrina cristã de que Deus tornou-se homem e permitiu que seu filho único sacrificasse a vida para expiar os pecados da humanidade.

2 - O judaísmo não reconhece um “filho de Deus” que se destaca e se eleva acima dos outros seres humanos. Todos somos “filhos de Deus”. Na teoria judaica, Deus não pode materializar-se em nenhuma forma. A crença num messias divino que é encarnação de Deus contraria a convicção judaica da absoluta soberania e unicidade de Deus.

3 - O judaísmo é uma religião que se caracteriza por um grande número de leis rituais e se baseia num sistema de prescrições e proibições. O cristianismo se apresentava como uma religião “antilegalista”. Com isso, não só afirmou sua independência em relação ao judaísmo como também conquistou adeptos em todo o império romano, tornando-se uma religião de massas.

4 - É importante ressaltar o caráter opressivo do governo romano na Judéia. Pôncio Pilatos foi especialmente cruel no exercício de suas funções. Antes de Jesus, centenas de outros judeus já haviam sido crucificados. Jesus foi crucificado pelos soldados romanos como criminoso político, “Rei dos Judeus”. A acusação de deicídio, que pesou sobre o povo judeu e foi uma das principais causas do antissemitismo é totalmente infundada. Acusar os judeus da morte de Jesus foi a forma mais convincente de fazer a verdadeira acusação, a de que nem todos os judeus se tornaram cristãos. Há trinta anos, o Concílio Vaticano II repudiou a acusação de deicídio contra os judeus.

5 - Existem quatro evangelhos, não um. É preciso lembrar que não foram escritos como relatos históricos, no sentido moderno, isto é, como uma transcrição factual de eventos, e sim como narrativas de caráter religioso. Os eventos foram vistos sob quatro óticas teológicas diferentes.

E também foi chamado a opinar um pastor luterano: Milton Schwantes, 49 anos, pastor de Guarulhos e coordenador do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião.

Eis o que ele disse sobre as mesmas cinco perguntas:

1 - Jesus foi um sábio em meio à vida da gente. Na Galileia, era pouco percebido entre os grandes. Suas críticas aos romanos imperialistas e às elites locais por certo eram severas, duras. Mas não promoviam a luta armada. O amor radical como caminho da justiça decidida era sua vida. Jesus foi revolucionário, sem armas.

2 - Ao invés de fazer-se comunitária, a experiência pode fazer-se violenta, excludente, exclusiva. Eis a estufa do fundamentalismo. Somos hóspedes na casa de Israel. Não donos. Os que estão “em Cristo”, que são cristãos, assumem a fragilidade de não serem autossuficientes. Sem Israel e suas sinagogas viramos galho sem tronco. Mas nem sempre suportamos esta fragilidade. Antes fizemo-nos donos. Quisemos nos adonar de Israel. Expropriamos os seguidores de Tupã, escravizamos os de Olodum. Ao deixarmos de ser hóspedes de Israel fizemo-nos também exterminadores de muitos povos.

3 - Pelo que me consta, os cristãos não passavam de uns 10% da população, quando Constantino incorporou essa religião ao império romano. Nesse sentido, o cristianismo se tornou religião de massas através do poder de Estado. Aliás, o que aí teve início perpassou a história da Europa e das Américas. O poder foi o maior pregador. Ainda estamos nestes tempos. Ora, as igrejas se sentem muitos sós sem os palácios. Ora, o senhorio do palácio se torna devoto, porque sem religião não se ganha eleição.

4 - Os colonizadores romanos mandavam matar na cruz. E quem estava com eles, fazia o jogo do império. À cruz era levado quem ameaçasse a ordem dos senhores em Roma e em Jerusalém. Por isso Jesus foi sentenciado. Aliás, continua sendo sentenciado, hoje, dia a dia. Basta querer ver.

5 - Tradições bíblicas investem na diferença. Jardim bonito é o que floresce em muitas cores. A Bíblia leva mais o jeito de jardim do que de verdade em si, acabada, na linha. Até seria de estranhar se não houvesse “contradições”. Os quatro evangelhos não fogem à regra da diversidade, cada qual dando o melhor de si para embelezar sua flor. O mundo é maior e mais lindo que o que cabe na mente ocidental, que pensa em linha, em fila, alinhada.

Para finalizar quero sugerir ao leitor: tome a pergunta 1 e visite as três respostas dadas a ela pelos três personagens entrevistados. E faça o mesmo com as demais perguntas. É uma modalidade de conhecer as suas respostas como se eles estivessem sendo entrevistados e respondendo uma a uma, em conjunto, a cada uma das cinco perguntas. Fazendo isso crescemos em compreensão e temos as mais relativas possibilidades de irmos fazendo um resumo a respeito das divergências e da polêmica.

Até mais.