O princípio de Rumpelstiltskin: diagnóstico
Por Jeanne Achterberg
Em comum com o médico contemporâneo, o curador não-médico tem o privilégio do diagnóstico. E. Fuller Torrey expõe a importância dessa tarefa, denominando-a o "princípio de Rumpelstiltskin", de acordo com o antigo conto de fadas em que a magia surgia quando a palavra correta era pronunciada. De acordo com Torrey, o próprio ato de nomear é terapêutico, transmitindo a confiança de que alguém está entendendo o que acontece. A crença comum é que, se o problema pode ser compreendido ou até nomeado, poderá ser curado. O paciente sente alívio e pode enfrentar o que virá com calma. Só aqueles que estão em posição de grande respeito em qualquer cultura podem realizar a nomeação com eficácia. Devem ter uma determinada visão de mundo em comum com o paciente, e o diagnóstico deve ser relevante para essa visão, para que seja eficaz (como diz Torrey, isso coloca um problema significativo no caso de qualquer tentativa transcultural em psicoterapia; é presumível que isso também se aplique a qualquer tentativa no campo da medicina transcultural).
O princípio de Rumpelstiltskin é vital em qualquer contexto da saúde. Os pacientes anseiam por um diagnóstico que possam aceitar, independentemente do fato de ele não importar nem um pouco para o tratamento.
Fomentando esperança, auto-estima
e reintegração cultural
Os temas mais predominantes na literatura e os mais relevantes para a metáfora que estamos examinando são que o curador popular é bem-sucedido por causa de sua habilidade para dar esperança, reforçar a auto-estima e ajudar o indivíduo desajustado a encontrar uma aceitação satisfatória da comunidade.
Essas qualidades são assinaladas como a falha significativa nas práticas médicas cosmopolitas e como razões de emulação dos comportamentos do curador popular. Há também um pressuposto de que esses esforços. conduzirão a sentimentos de bem-estar, quando não a transformações reais no corpo físico, isto é, eles farão com que a enfermidade melhore, quando não a doença. Outros escritores descrevem o potencial para uma mudança positiva da doença e da enfermidade.
Ness e Wintrob afirmam que a eficácia dos curadores populares está em sua capacidade de capitalizar sentimentos de dependência do paciente, de auto-estima reduzida e ansiedade, quando fazem promessas de recuperação. O ritual terapêutico propõe um plano a ser seguido por toda a comunidade, e todos que participam passam a experimentar um sentimento de controle e propósito. A auto-estima do paciente é aumentada, na medida em que a atividade nele se concentra. E de acordo com esses escritores, quando o curador invoca as forças sobrenaturais, o paciente recebe uma confirmação ainda maior de que ele é digno de ser contemplado com aquele tipo de ajuda.
Weatherhead caracteriza a confirmação da cura pela fé (e, portanto, a imaginação) como uma condição da "confiança expectante". Os curadores populares têm a capacidade de reforçar essa confiança se forem figuras carismáticas ou se sua reputação de pessoas com dotes especiais for do conhecimento do paciente. Quando a confiança volta, o paciente sente-se menos deprimido, mais forte e mais vigoroso - acredita-se que esses fatores estejam associados a uma cura acelerada ou, pelo menos, a uma melhoria da doença.
Torrey cita vários fatores característicos que servem para gerar confiança em todos os tipos de curadores: a jornada ou peregrinação para ir até o curador (neste caso, a distância parece ser importante); a impressão causada pela construção ou edifício e por tudo aquilo que eles contêm; o porte e a conduta do curador, tão característicos; suas credenciais como pessoa experiente; um ar difuso de poder e mistério e até medo. A estima do paciente aumenta pelo simples fato de estar na presença e receber atenção personalizada de uma pessoa tão impressionante e importante. Os temores e ansiedades dos parentes, que podem ajudar a alimentar no paciente o papel de doente, também se reduzem quando ficam sabendo que a ajuda é iminente.
O desamparo pode ser literalmente letal ou significativamente prejudicial à saúde e ao bem-estar do indivíduo. Mudanças de comportamento muito definidas foram observadas em várias espécies quando confrontadas com uma situação sobre a qual não tinham o menor controle. No plano antropomórfico, essas mudanças poderiam ser descritas com "desistência" e são acompanhadas por evidências de deterioração física. Nos seres humanos, o desamparo está normalmente associado à depressão profunda, apatia e perda de energia, que ocorrem até mesmo antes da manifestação da doença. O ponto essencial do trabalho dos curadores populares é que, quando a esperança ou o controle voltam, são acompanhados por uma melhoria física e no comportamento. Nesse contexto, ao fomentar a esperança, estão oferecendo o dom da cura. Concluímos na próxima postagem.
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