042. Falta Deus à nossa cultura
A série “Cópia ou Matriz”, abordou posicionamentos que acabam sendo verdadeiras ondas e criando verdadeiros paradigmas, ainda que de curta duração. Uma infinidade de erros e contra-sensos, além daqueles mencionados na referida série são cometidos todos os dias por líderes e militantes de grupos defensores de uma nova ordem política, ecológica, social, religiosa. É muito grande, também, a lista dos seguidores dessas ondas. Seguidores cegos, andantes de pelotões guiados sem clareza naquilo que seguem. Apontar esses erros e contra-sensos, tentar corrigi-los requereria um volumoso dossiê e o blog não tem a função de apresentar teses e tratados. Nossa sociedade está carente de luzes, no mínimo, para deixar mais claro quem são os seus guias.
Daremos mais algumas amostras para que o leitor veja quanto um erro nas suas premissas pode ser fértil em conseqüências indesejáveis.
Temos ferrenhos combatentes ao uso da energia nuclear, mesmo para fins pacíficos, contrários a qualquer exploração na Amazônia e a outras modalidades de exploração que poderiam gerar emprego e renda, mas, por via de conseqüência, esses mesmos “do contra” esquecem-se de incluir o ser humano como mais um integrante dos ecossistemas. Separam a física enquanto modalidade de conhecimento teórico e a natureza das suas aplicações práticas, como se uma não decorresse da outra necessariamente.
Estamos cansados de assistir as incoerências desses pensadores e suas torcidas. Para o holismo toda separação estanque entre uma idéia e suas manifestações práticas é nada mais que um abstratismo. Holisticamente falando, o efeito benéfico ou destrutivo dos engenhos nucleares tem de estar arraigado no próprio modus cognoscendi que os produziu. Não dá para ser cego para as relações, muito próximas, entre o conteúdo teorético de uma ciência e suas aplicações práticas.
Uma das áreas mais críticas é a dos serviços de menor qualificação. Em nossa sociedade, durante milênios, o trabalho entrópico (trabalho repetitivo que não deixa efeitos duradouros, como, por exemplo, cozinhar um jantar que será consumido imediatamente) é desvalorizado, e por isto é atribuído às mulheres e aos grupos minoritários. Este é um comportamento típico da sociedade industrial herdado dos tempos feudais e da escravidão. O assustador volume de migrantes clandestinos procedentes de países pobres como mão de obra em cozinhas, lavanderias, padarias, hotéis, restaurantes e construções para serviços considerados de pouca ou nenhuma nobreza, dá bem o diagnóstico dessas barbaridades que se cometem contra o ser humano. Nos mesmos ambientes em que os teóricos brindam e regam suas festas de elevada conta, o garçom que serve a champanhe ganha, por mês, menos que o valor uma garrafa daquela bebida.
Estávamos acostumados e entregar o trabalho sujo aos escravos e hoje substituímos o prato a ser lavado por algo descartável que parará na Natureza e levará 300 anos para se decompor. Tiramos o emprego do serviçal, suprimimos o ato de lavar o que sujamos e castigamos a Natureza com pesados descartes não degradáveis. Sujamos o planeta em substituição ao trabalho do lavador de pratos. Ele custa pouco porque ainda ganha pouco, mas o efeito desse comportamento na Natureza poderá tornar inviável a vida no planeta, não só pelo descarte dos resíduos sólidos, mas também pelos efeitos da indústria química ao usar matéria prima não renovável que se soma à supressão de empregos.
Por conseqüência, naquelas situações em que o emprego existe, o seu ocupante é um estrangeiro negro, pardo, latino, muçulmano, mal pago, sem registro em carteira, anônimo.
Não existiu jamais uma sociedade em que os serviços entrópicos fossem mais valorizados que os outros. Sim, isso é, verdade. Mas, também jamais houve uma sociedade que desprezou tanto os serviços entrópicos como a nossa. Exceto em alguns casos. Nos mosteiros de monges budistas e cristãos, cozinhar é uma honra e limpar as privadas um mérito invejável. Se, dentro de um mosteiro, o trabalho entrópico tem valor, é justamente porque ali não há a sociedade maior e porque ali se dá um outro significado ao trabalho.
Então os nossos erros estão neste modo de prover a família, prover a prefeitura, eleger os legisladores, constituir os pregadores que repassam o ensino da ética. O doutor de gravata passa antes do operário de macacão. Os trabalhos humildes adquirem dentro dos mosteiros um valor espiritual e disciplinar justamente na medida oposta em que no "mundo externo" têm pouco prestígio social e pouco valor econômico. A nossa sociedade valoriza o que tem preço. A desvalorização social do trabalho entrópico não é característica só da sociedade industrial, mas da sociedade humana em geral; inversamente, a sua valorização espiritual é um traço distintivo das minorias espiritualizadas envolvidas em alguma forma de rejeição religiosa do "mundo profano".
"Tradições como o vedanta, a ioga, o budismo e o taoismo assemelham-se muito mais a psicoterapias do que a filosofias ou religiões", é o que se pode encontrar grafado em algum livro. Vale raciocinar que os erros e contra-sensos desta sociedade que vem desprezando os serviçais desde o feudalismo e desde a escravidão, decorrem da falta de Deus. Se há um traço característico do Ocidente moderno, que o distingue radicalmente das tradições orientais, é justamente o desenvolvimento tecnológico e o abandono da idéia da existência de Deus. Mérito da ciência laica. Demérito das igrejas.
Aprendemos a endeusar o dinheiro e hoje fazemos qualquer coisa para botar a mão nele, trocamos a honra, a liberdade, o futuro de nossa alma por um sacola cheia de notas de 100. Tornamos-nos incapazes de aceitar que Deus não proíbe a riqueza. Deus é muito rico e divide toda a sua fortuna com todos os seus filhos. O problema é que seus filhos não sabem dividir, nem incluir.
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