036. Diferenças são diferenças
Os ocidentais, com suas mentes funcionais e objetivas, levarão alguns séculos para chegar aos padrões orientais. E quando lá chegarem, se chegarem, os orientais já não estarão literalmente no budismo e no hinduísmo, pois o trem não pára e eles já faz alguns milênios que estão dentro de suas marias-fumaças. Ademais, diferenças entre ocidentais e orientais são diferenças quilométricas. Por exemplo, o ideograma Wang ("o Imperador") esclarece isso melhor o que está sendo abordado. Ele constitui, por si, um compêndio de cosmologia chinesa. Compõe-se de três traços horizontais — o Céu em cima, a Terra em baixo, o Homem no meio, formando a tríade Tien-Ti-Jen, "Céu-Terra-Homem" — cortados por um traço vertical, o Tao, que se traduz um tanto convencionalmente por Lei ou Harmonia. A Harmonia, ali explicada, consiste em que cada coisa fique no lugar que lhe cabe, de modo que, por trás de todas as mudanças por que passa o mundo, a ordem suprema não seja violada. (Embora neste mundo de aparências ela esteja necessariamente presente, pois, como diz o Evangelho, "é necessário que haja escândalo"; mas no fim todas as desordens parciais são reintegradas na ordem total).
Na Tríade chinesa, o homem é chamado "filho do Céu e da Terra". Sendo o Céu o pai, já se vê, pelo hexagrama 37, quem é que manda. O homem governa, portanto, o mundo visível, mas não o faz por arbítrio próprio, e sim em nome de uma ordem transcendente. Tien não significa o "céu" no sentido material, mas a "perfeição celeste" ou mais propriamente a "vontade do Céu"; em inglês, que o sr. Capra compreende melhor, não o sky, mas o heaven, morada do Espírito Santo. O sábio ou imperador apreende no invisível a vontade do Céu e a põe em execução na Terra. Na sala central do seu palácio, ele cumpre diariamente ritos de um complexo simbolismo geométrico e numerológico (similar ao do pitagorismo), mediante os quais os arquétipos celestes "descem" (exatamente como na missa "desce" o Espírito Santo) para trazer à Terra a ordem e a harmonia. Se o imperador pára de fazer os ritos, a Terra — sociedade e natureza ao mesmo tempo — entram em convulsão, espalham-se por toda parte a ignorância, o medo, a violência, a fome, a peste.
Não era só a interrupção dos ritos que podia trazer a catástrofe. "O imperador — escreve Max Weber em A Religião da China — tinha de se conduzir segundo os imperativos éticos das escrituras clássicas. O monarca chinês permanecia basicamente um pontífice. Ele tinha de provar que era mesmo 'filho do Céu', o regente aprovado pelos Céus, para que o povo, sob o seu governo, vivesse bem. Se os rios arrebentavam os diques ou a chuva não caía apesar de todos os ritos, isto era prova — acreditava-se expressamente — de que o imperador não tinha (mais) as qualidades carismáticas requeridas pelo Céu."
O homem governa a Terra, mas em nome do Céu. Governa como pontifex, "construtor de pontes", que liga a Terra ao Céu através do Reto Caminho, o Tao. Caso se afaste do Reto Caminho, ele perde de vista a Vontade do Céu e já não pode governar senão em nome próprio, como tirano e usurpador. Aí, num choque de retorno, ele perde seu poder e cai sob o domínio das potências terrestres.
Não é muito diferente o entendimento de espíritas e judeus quanto a isso: se não tiver méritos, as graças não vêm, as bênção não se fazem.
No Tao, como a Terra designa ao mesmo tempo a natureza física e a sociedade humana, o choque pode significar tanto uma revolução civil ou golpe militar, quanto uma tempestade ou terremoto. O monarca que cai representa, por analogia, qualquer homem que, rompendo com a ordem celeste, perca de vista o seu destino ideal e caia presa das paixões abissais. É a situação descrita no hexagrama 36, O Obscurecimento da Luz: "Primeiro ele subiu ao Céu, depois mergulhou nas profundezas da Terra. O comentário tradicional, resumido por Richard Wilhelm, é o seguinte:
"O poder da treva subiu a um posto tão alto que pode trazer dano a quantos estejam do lado do bem e da luz. Mas no fim o poder das trevas perece por sua própria obscuridade".
Já se vê que o conselho do sr. Capra, afetado pela ambiguidade da palavra "natureza", pode ter dois significados opostos: com "integrar-se", pretende ele que obedeçamos à Vontade do Céu ou que mergulhemos nas profundezas da Terra? As falas dos profetas, quando obscuras, merecem interpretação imprecisa. Interpretemos, se possível precisamente.
Na versão do sr. Capra, o Céu não é mencionado. A tríade fica reduzida a uma dualidade: de um lado o homem, de outro a natureza visível. O macho e a fêmea. O yang e o yin frente a frente em situações opostas. A cada um só resta a alternativa de subjugar o outro ou "integrar-se" nele. O homem da civilização industrial optou pela primeira hipótese. O sr. Capra advoga a segunda. E no país que escolheu para viver e produzir cátedra, o Congresso e o presidente não assinam tratados de redução de gazes jogados na atmosfera porque, segundo a tradição, a natureza deve ser submetida para a felicidade (diga-se riqueza) do homem.
É verdade o que diz o sr. Capra, que a civilização ocidental optou por dominar a natureza. Mas é verdade também que, desde o Renascimento ao menos, ela (a civilização) apagou (exatamente como o sr. Capra) toda referência a uma ordem transcendente (Tien) e deixou o homem sozinho, face a face com a natureza material. Desde então a história das idéias ocidentais tem sido marcada por uma oscilação pendular entre as ideologias da dominação e as ideologias da submissão: classicismo e romantismo, revolução e reação, historicismo e naturalismo, cientificismo e misticismo, ativismo prometéico e evasionismo quietista, marxismo e existencialismo e, last not least, revolução cultural socialista versus ideologia da "Nova Era".
É neste último par de opostos que reside a chave para a compreensão do nosso profeta. O sr. Capra acerta na mosca (nenhum profeta pode realizar o prodígio de errar sempre) ao dizer que sua visão da história cultural é uma alternativa ao marxismo. Para Marx e seus epígonos, a natureza nada mais é que o cenário da história humana. Está aí não como um ser, uma substância ontológica que o homem deva contemplar e respeitar em sua constituição objetiva, mas como matéria-prima a ser apropriada e transformada livremente segundo o arbítrio humano. A natureza, em Marx, é ancilla industriae. O marxismo prossegue a tradição de prometeanismo revolucionário do Renascimento, potencializando-a mediante a submissão completa e explícita da natureza à história. A isto é que se opõe a ideologia da Nova Era.
Mas ela não se opõe somente ao marxismo em geral, e sim a uma forma específica de marxismo, que também, como ela, quis operar uma "mutação", um giro de cento e oitenta graus na orientação do pensamento humano. O fundador desta corrente marxista foi o ideólogo italiano Antonio Gramsci (1891-1937). É tema para o próximo comentário.
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