024. Um breve retrospecto
A história da escravidão é muito antiga, tem, certamente, mais de 5 mil anos envolvendo esta civilização da qual temos notícias. E a História Humana demonstra que não são escravizados somente os ignorantes e ingênuos: povos importantes como os hebreus passaram pelo cativeiro. E, na continuidade, se tornaram escravocratas.
Mas, como a proposta desta série é abordar o que mais profundamente já mudou e está mudando na milenar tradição social, política, econômica, religiosa, começaremos por resgatar acontecimentos de 100 a 40 anos atrás. Perceba o leitor que ali se começou a acontecer uma conspiração de cultura, uma consciência coletiva, um aluvião mental pedindo passagem e promovendo uma revolução no campo da fé com impacto nas tradições citadas, umas com mais pressa, outras com mais vagar. Atentem para as mudanças fundamentais ocorridas no modo como as pessoas pensam acerca da sua realidade, notadamente a cosmovisão, o conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que sustentamos (consciente ou inconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a vida, o homem e o cosmos.
O primeiro setor a ser afetado foi a igreja (letra minúscula porque não se refere só à Católica, porém também ela e muito). Então, com esta mudança de realidade, as igrejas têm sido grandemente impactadas na maneira como vêem a si mesmas e sua missão no mundo.
Os estudiosos se referem a esta mudança como Pós-Modernismo, tema que já andamos explorando aqui neste espaço. E as igrejas emergentes neste último século e a repaginação havida na Católica, foram uma tentativa para responder a esta nova realidade. Mas, ficaram devendo.
É essencial explicar um pouquinho o contexto para entendermos os fundamentos desta nova cosmovisão. O fazemos inicialmente através de uma metáfora envolvendo o atual sonho de consumo da sociedade, o automóvel. A construção de um bom automóvel passa pela sua carcaça, eixos, rodas, pneus, suspensão. Certo? Sem isso o computador a bordo não servirá para nada em se tratando de mobilidade automotiva.
A maioria das corporações de fé, que chamamos de igrejas, ainda aplica algumas práticas estranhas e ensinamentos bizarros dentro daquilo que nos referimos na Introdução como estratégia de dominação através da ilusão. São fases, é preciso compreender, mas existem fases muito lentas, outras muito longas, e a travessia da noite para o dia se faz demorada. As novas formas de oração, a sinistra ioga e as práticas místicas, o retorno às antigas práticas da igreja medieval, estilos de adoração e música, etc., etc. tudo se inclui neste show de fé, para não falar nos missionários carismáticos que acabam por adquirir fama e importância tanto quanto os salvadores, santos e heróis.
Estamos vendo nascerem homens-show idolatrados e adorados pela massa carente e impotente à espera do salvador.
Entram para esta lista inúmeros pastores, bispos, padres, homens-show, como dissemos, que montam espetáculos para milhares de adeptos. Em nada difere dos megashows de outros gêneros musicais como rock, axé e sertanejo, que conseguem reunir milhares de fanáticos ou lunáticos. Em geral há o dinheiro envolvido e em regra a ilusão é distendida. Nós não temos idéia do que está realmente por trás disto. Estamos simplesmente diante de uma sofisticada mágica, mística, encantadora, ilusionista prática de conexão do homem com algo que ele não sabe definir. E se deixa levar.
Para os diretores de palco essa é a apoteose nunca imaginada. Acrescente-se aqui as multidões freqüentadoras do Círio de Nazaré, no Norte, da Procissão a Padre Cícero, no Nordeste, da Marcha para Cristo no Sudeste e Sul, para ficar só nestas: novos estilos de adoração, novas abordagens musicais, novas abordagens para o crescimento da igreja, novos tipos de liderança na igreja, novo estilo de vida (alternativo), onde até mesmo a Parada Gay pode ser incluída. Em muitos casos, os seus “adeptos” passam o ano inteiro focando energia para o evento, uma inovação que se assemelha ao carnaval de algumas cidades. Uma paranóia ainda sem muita explicação.
No caso do Norte e do Nordeste alguém poderá argumentar: trata-se de uma fatia pobre e sofrida da população, que encontra nesses espetáculos a razão de ser de suas emoções, sentimentos, aprendizagem e realização. Mas, quando fala em pobreza não se está referindo a poder econômico, só. Por entre os pobres estão pessoas com excelente renda. Dinheiro até há, o que não há é senso crítico. Suas mentes são embotadas. A sua vontade foi aprisionada. E a maria vai com as outras, sem questionar e sem quem que questione. Os melhores líderes deste país não abordam isso com maturidade intelectual.
Mas, não termina aí o retrospecto. Há uma grande fatia da população de classes A e B que desfila na passarela chique, com roupas de grife, carrões e que se embriaga e se droga na ilusão do brilho desse último estilo, que não é tão último assim, pois desde o Império Romano essas coisas são vistas e sentidas. As festas ditas chiques têm o componente cocaína misturado à champanha, ao vinho, à cerveja. Os bares noturnos e casas de show lidam com isso dentro da normalidade. E a normalidade virou doença social.
Outra parte importante da população é refém das milícias de drogas. Os cartéis de traficantes se encastelam nos bairros, morros ou não, geralmente favelas, onde a população pobre, pouco ilustrada e carente, passa a ser dominada pelos esquemas de paternalismo e terror.
Querem mais exemplos de dominação, prisão, escravatura? Eles existem aos montes. Aquelas pessoas que se fecham em casa e ficam vendo o “Brasil Urgente” e outros poderosos programas jornalísticos dedicados ao enaltecimento da degradação do homem, também são prisioneiras, prisioneiras do medo, da desesperança, olhando para o policial como herói, a espera do salvador que as tire do abismo aonde estão dependuradas.
O que muda entre os exemplos apresentados: A, B, C, D,...Z?
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