Cura transpessoal/espiritual
Por Jeanne Achterberg
Os cientistas comportamentalistas e sociais, habitualmente, ignoram o componente transpessoal ou espiritual da cura popular. Ocasionalmente, os rituais a ela associados serão descritos como fatores que intervêm na melhoria das perspectivas psicológicas do paciente. As observações de Jerome Franck sobre esse tema são características, e a maior parte das fontes consultadas citam-no ou apresentam uma permutação do mesmo pensamento, como, por exemplo: "Os métodos da cura primitiva envolvem um interjogo entre o paciente e o curador, o grupo e o mundo sobrenatural; isso serve para aumentar a expectativa de cura do paciente, ajuda-o a harmonizar seus conflitos interiores, reintegra-o ao seu grupo e ao mundo espiritual, propicia um quadro conceitual que o ajuda neste sentido e o incita emocionalmente". Franck prossegue, afirmando que a função de todo o processo é combater a desmoralização e fortalecer o senso de auto-estima do paciente.
O aspecto espiritual, transpessoal do trabalho com a imaginação é visto de modo um tanto diferente por Guenter Risse, especialista em história da medicina. Ele acredita que uma "rede elaborada" de relações espirituais que são criadas pela sociedade em que tais curas se dão constitui, na verdade, uma válvula de escape que permite aos seres humanos transcender "um aparente determinismo imposto pelos componentes sobrenaturais do cosmos". Risse menciona que até hoje as pessoas são atraídas pelo oculto, para transcender as amarras do determinismo científico. Os rituais, os procedimentos divinatórios e as ações terapêuticas derivam, segundo ele, de uma visão de mundo mágico-religiosa. "Elas apelam para os componentes emocionais irracionais da psique, trazem satisfação às nossas necessidades e produtos metafísicos da imaginação."
As crenças religiosas também podem ser abordadas como um aspecto da teoria da aprendizagem. Isto é, são classificadas como comportamentos supersticiosos e definidas como instâncias que podem ter sido poderosamente reforçadas por eventos coincidentes, ocorridos no passado próximo ou distante da tribo. O surgimento de um reforço intermitente tem a conhecida e intensa capacidade de confirmar o comportamento humano. De acordo com esses princípios, eventos de cura que, na verdade, eram "remissões espontâneas" ou componentes de distúrbios autolimitados podem ter ficado associados "acidentalmente" às súplicas ao sobrenatural e às atividades mágico-religiosas dos curadores. Os comportamentos supersticiosos também têm o efeito de reduzir a ansiedade e gerar esperança no período entre a doença e a recuperação. Em situações experimentais os comportamentos supersticiosos foram descritos como algo que preenche o período entre o estímulo e o reforço, ou como uma cadeia de comportamentos intermediários entre os acontecimentos.
Os rituais
A essência da cura popular está no ritual, e não naquilo que normalmente é concebido como medicina. Em conseqüência, os observadores comportamentalistas e sociais têm tentado descrever e/ou explicar quaisquer efeitos curadores em termos daquilo que os rituais poderiam significar, caso se realizassem em circunstâncias mais modernas.
O consenso é que o valor do ritual se apóia no seguinte:
1) os demorados preparativos habitualmente necessários antes do ritual de cura dão aos parentes algo para que eles possam demonstrar preocupação;
2) os preparativos e a participação ritual são um modo de paciente e comunidade sentirem que controlam aquilo que parecia ser uma situação sem esperança;
3) as relações dentro da comunidade são cimentadas e a solidariedade grupal é intensificada;
4) o enredo e a estética do ritual são reconfortantes e distraem;
5) as características do ritual consolidam os laços entre o paciente e o grupo, do qual ele pode ter se sentido alienado;
6) o paciente pode sentir alívio, na crença de que a harmonia entre ele e o mundo dos espíritos foi estabelecida;
7) os rituais e símbolos servem para interpretar o significado da doença e o papel do paciente em um contexto cultural;
8) o paciente é excitado emocionalmente pela intensidade do ritual, e isso aumenta ainda mais a esperança ou uma confiança, carregada de expectativas, de que algo importante irá acontecer;
9) o custo dos rituais de cura é considerável, na maior parte das culturas (inclusive a medicina ocidental), e pode acarretar o preparo de alimentos mais apreciados e nutritivos, intensificando mais uma vez a auto-estima, a esperança e o orgulho do paciente;
1O) quando há preparados psicoativos ou quando se entra em estados de consciência alterados ou dissociativos, em conseqüência do ritual, o poder do curador é validado por essas experiências tão inusitadas, e elas reforçam o sistema de crenças espirituais.
Ness e Wintrob relatam observações interessantes sobre as razões pelas quais podem ser eficazes os estados dissociativos em que entram o paciente e o curador. Eles afirmam que a experiência torna o paciente mais suscetível às sugestões feitas pelo curador e que o estado dissociativo pode ser catártico, se ao paciente for dada permissão para comportar-se de modo socialmente inaceitável em outros contextos.
O valor psicoterapêutico do ritual foi bem expresso por Wolfgang Jilek, psiquiatra e antropólogo, que fez pesquisa de campo na África Oriental, Haiti, América do Sul, Tailândia, Papua Nova Guiné e com os índios da região ocidental do Canadá. Embora as observações a seguir se refiram à dança dos espíritos dos índios salish do litoral, elas são aplicáveis a quase todos os rituais de cura. Jilek identificou componentes de atividade ou terapia ocupacional e notou que a terapia de grupo é relevante, e a solidariedade grupal e a coesão se expressam freqüentemente. O ritual dá oportunidade de uma abertura catártica, que, segundo acredita, libera das tensões emocionais acumuladas, na medida em que as situações são revividas. O psicodrama ou a dramatização é um traço notável de muitos rituais de cura. No moderno ambiente terapêutico, o psicodrama tem como objetivo permitir à pessoa expressar seus problemas ou exteriorizar em um ambiente controlado, que dê apoio. Jilek nota, enfim, o efeito psico-higiênico de uma intensa atividade física. Com efeito, tanto as pesquisas recentes quanto a tradição antiga sugerem que a atividade física pode combater a depressão, além de melhorar a condição física. O trabalho ritual pode incluir invocações, dança e canto por dias a fio, ou, no caso dos que dançam incorporando os espíritos, pode durar meses.
Outros pontos foram levantados por Robert Bergman, psiquiatra que estudou em uma "escola de curadores navajos” e praticou a psiquiatria entre esses índios por vários anos. Ele observa que durante as demoradas cerimônias ou "cantos" navajos, a prolongada e intensa natureza do contato torna inevitável a revelação dos conflitos e, caso sejam abordados com perícia, poderão ser resolvidos. Também vê os rituais como um momento de moratória e como um ponto de mutação.
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