domingo, 19 de agosto de 2012

Cópia ou matriz (VII)


040. E viva a cópia

Temos uma sucessão de idéias tendenciosas a criar currais intelectuais onde Maria vai com as outras, e o povo, em rebanho, marchando para o matadouro. Capra está sendo eleito aqui como ícone, como ele próprio desejou ser, a fim de demonstrar que as coisas não são bem assim e que a verdade parece estar mais abaixo dos níveis dos tiroteios ideológicos que tivemos. E ainda continuaremos a ter.
O sr. Capra, como se vê, pouco entende dos assuntos em que exerce, para um público multitudinário, uma autoridade profética. Ele prima, nesse caso, pela carência de informação elementar sobre a cosmologia chinesa, na qual diz basear sua visão da história cultural, bem como sobre a história cultural mesma, que ele procura, mediante generalizações grosseiras, e escandalosas alterações da cronologia, encaixar à força num modelo preconcebido.
Não se questiona, aqui, a validade da proposta holística em geral. Reservamo-nos o direito de fazê-lo num outro trabalho. A proposta holística deve ter defensores um pouco mais qualificados do que o sr. Capra. E tem.
O propósito foi dar um testemunho sobre um fato de relevância mundial, que acontece bem diante das nossas barbas, e de cuja realidade as gerações vindouras terão o direito de duvidar. Mas, que, em princípio, acreditaram nela por demais. Para a razão e o bom-senso, não é verossímil que milhares de intelectuais de prestígio, em seu juízo perfeito, possam aceitar e aplaudir como um marco da história do pensamento uma obra como “O Ponto de Mutação”, que não atende sequer aos requisitos mínimos de informação fidedigna, de autenticidade das fontes e de rigor conceptual, como se exige de uma tese de mestrado. Dentre tantos outros defeitos que um livro pode ter, este padece do único que não se pode tolerar em hipótese alguma: a ignoratio elenchi, a ignorância completa do assunto. O sr. Capra define o seu livro, pretensiosamente, como um novo modelo de história cultural baseado nas concepções chinesas do homem e do universo. Mas ele não estudou o suficiente nem a história cultural nem as concepções chinesas para que sua opinião a respeito possa ter qualquer importância objetiva, fora do seu círculo de convivência pessoal. Ele copiou errado e leva seus seguidores a copiar o erro. O conteúdo de sua propalada sabedoria do assunto é pura lana caprina.
O sucesso desse livro só pode ser explicado por um único fator, inteiramente alheio ao seu valor intrínseco: sua oportunidade. Ele diz o que as pessoas desejam ouvir, no momento em que o desejam. Ele oferece uma perspectiva sedutora a um público que pede para ser seduzido. Somos rebanhos abandonados pelo pastor e sem pasto. A Igreja de Roma nos levou para o deserto. As pentecostais nos iludem ainda mais. Os Estados Unidos inventaram uma Nova Era budista que de Budha nada tem.
Estamos perdidos? Talvez não.

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