segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cópia ou matriz (I)


034. Primeiro Buda, depois Brahma

É lamentável a extrema influência exercida pela literatura estadunidense sobre a América do Sul. Para fugir dos rigores de sua rígida cultura religiosa herdada do protestantismo europeu, grande parcela da intelectualidade dos Estados Unidos descobriu no budismo um caminho de libertação e demissão dos autoritários pastores. Estes perderam boa parte da clientela para o movimento que se autodenominou Nova Era ou, se preferirem, New Age. Outra parte, principalmente a menos letrada foi parar nas igrejas pentecostais, bem como também aconteceu no Brasil, naquele boom de igrejas copiadas de lá, inclusive a Universal.
Umas centenas de artistas e intelectuais se tornaram adeptos do budismo sem serem budistas. Modificaram o entendimento budista sem perder de vista alguns preceitos como a reencarnação e logo em seguida acrescentaram toques do hinduísmo. Escritores como Fritjof Capra e Amit Gosvami passaram a vender livros e palestras para abastecer a sede de espiritualidade dos norte-americanos e, por extensão, de boa parte dos americanos das demais Américas.   
Não faz muito esteve no Brasil o sr. Fritjof Capra, chamado pela Universidade Holística de Brasília, a Unipaz, para falar sobre a Nova Era que ele anuncia no seu livro O Ponto de Mutação.
A voz do sr. Capra não clamou no deserto. A Unipaz já reuniu uma congregação de intelectuais locais para dizer-lhe amém. Entre os acólitos contam-se Frei Betto e o ex-reitor da UnB, Christovam Buarque. O sr. Capra, já se vê, não é um escritor como os outros: é um líder, uma autoridade espiritual e, admitamos logo, uma espécie de profeta.
O conteúdo de suas profecias é bastante conhecido: O Ponto de Mutação anda até nas mãos das crianças, que o debatem nas escolas. Mas, segundo a Unipaz, isso não basta. O sr. Capra tem de ser ouvido por todos os amigos da espécie humana. Pois, embora homônimo de um cineasta que se celebrizou pelas fitas de happy end, ele não garante nenhum final feliz para o nosso começo de século a não ser que a humanidade siga os seus conselhos. Passemos, portanto, a examiná-los, com a urgência requerida pelo caso.
Segundo o sr. Capra, a história do mundo chegou a um turning point, e deve mudar o seu curso. As três principais mudanças em pauta são as seguintes: primeira, a humanidade deixará de consumir combustíveis fósseis (petróleo); segunda, o patriarcado vai acabar; terceira, o paradigma científico vigente será substituído por um outro, de base holística. Estas três coisas já estão acontecendo, mas, assegura o sr. Capra, urge apressar a sua consumação, que marcará o advento da Nova Era.
Ao falar do primeiro item, o sr. Capra é muito breve, como convém aos profetas. Em vez das longas análises que concede aos dois outros temas, ele emite apenas esta profecia: "Esta década será marcada pela transição da era do combustível fóssil para uma nova era solar, acionada por energia renovável oriunda do Sol". Tendo o livro sido publicado em 1981, a década a que o sr. Capra se refere terminou em 1990. Bem, nem todos os profetas dão sorte. Mas, se a mencionada profecia vier a cumprir-se com quatro, cinco ou nove décadas de atraso, o sr. Capra sempre poderá alegar que São João Evangelista também não foi muito preciso quanto à data do Apocalipse.
Como muitos outros profetas, o sr. Capra pode queixar-se de ser um incompreendido. Há também quem não compreenda como é que o mundo poderia ter saltado direto da era dos combustíveis fósseis para a da energia solar, sem passar pelas eras atômica e do biodiesel, a primeira das quais já estava em curso na data de emissão da sua profecia e na qual continuamos a estar após a data do seu vencimento e já em plena produção dos combustíveis derivados de cana-de-açúcar, soja e mamona.
Mas talvez a intuição profética do sr. Capra opere à velocidade da luz, saltando etapas. Eis aí, aliás, um bom motivo para saltarmos logo para o item seguinte, já que o primeiro capítulo da mutação não teve um happy end.
O patriarcado consiste, segundo o sr. Capra, num complexo de três elementos: primeiro, o domínio do homem sobre a mulher; segundo, o domínio da espécie humana sobre a natureza; terceiro, o predomínio da razão (faculdade masculina) sobre a intuição (feminina). São três lados de um fenômeno único, que o sr. Capra resume como a supremacia do yang sobre o yin.
É, como se vê, um tipo especial de patriarcado, bem diferente daquele que está explícito nos livros de história e sociologia. Pois estes nos dizem que o aumento do poderio técnico sobre a natureza abalou o regime de propriedade rural no qual se baseava o patriarcado; e que o advento do Império da Razão, trazido no bojo da Revolução Francesa, promoveu logo em seguida a igualdade de direitos para homens e mulheres, desferindo o golpe de misericórdia na autoridade do pater familias. Em suma, que das três coisas que o sr. Capra reúne sob o rótulo comum de "patriarcado", duas são precisamente o contrário. Mas os profetas não ligam para as ciências profanas. Non enim cogitationes meae cogitationes vestrae, já nos tinha advertido a Bíblia. O sr. Capra, com efeito, não pensa como nós.
Mas há algo nele que, pelo menos alguns de nós, podemos compreender perfeitamente bem. Sendo a lógica, no seu entender, uma expressão do abominável patriarcado cujo fim ele deseja, ele não poderia mesmo obedecê-la sem tornar-se, ipso facto, ilógico. É então por uma simples questão de lógica que ele opta por ser ilógico. Qualquer bebê de colo pode compreender isto. O difícil é compreendê-lo quando já não se é um bebê de colo. Para ser admitido nos céus da Nova Era, o leitor deve, portanto, tornar-se como os pequeninos. Mas, a análise prossegue numa tentativa de sugerir a todos quantos queiram, de fato, libertar-se das cadeias religiosas, que comecem por escolher literaturas nada comprometidas com a Nova Era dos estadunidenses, como veremos adiante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário