030. Um conserto a ser feito na marra
Queiram ou não, como está não haverá final feliz. A Filosofia do século XXI tem um grave desafio a enfrentar. Uma sociedade pode existir por muito tempo sem moral ou verdade? Sociedades que são divididas contra si mesmas e fragmentadas em facções (ideologias), sem qualquer quadro de referência coerente são, por definição, instáveis.
O pós-modernismo está dividindo nossas sociedades. Enquanto para uns isso é o sonho de libertação, para outros isso é perigoso.
Sir Arnold Joseph Toynbee (1889-1975) foi um historiador britânico que escreveu uma análise em doze volumes da ascensão e queda das civilizações. Ele argumenta que as sociedades bem-sucedidas têm algum tipo de consenso religioso. Quando esse consenso é perdido, novos objetos de culto se apressam em preencher o vácuo espiritual. De acordo com Toynbee, quando uma sociedade perde a sua fé transcendente, se volta para três alternativas, as quais ele francamente chama de “idolatrias”: 1. Nacionalismo; 2. Ecumenismo; 3. Tecnicismo.
De certa maneira é isso que vimos e vemos na América do Sul. A divisão Inka causou a implosão de uma bela experiência de organização social, econômica e religiosa. E hoje o nacionalismo toma conta de Bolívia, Peru, Venezuela...
1. Nacionalismo – “Comunidade Paroquial Deificada”. Quando uma fé transcendente universal é perdida, dá lugar à “comunidade paroquial deificada”. Neste modelo, cada pequeno grupo considera-se divino. Ela idolatra-se e todos os estranhos são inimigos. Exemplos:
- A ascensão do Nacionalismo Renascentista depois que o consenso medieval ruiu.
- O Fascismo de Mussolini e o Nacional Socialismo de Hitler.
- O Fundamentalismo islâmico.
- As repúblicas nacionalistas da América do Sul (Chávez, Morales...)
Nas sociedades pós-modernas de hoje vemos como novos nacionalismos estão surgindo, cada um atacando as gargantas dos outros. A perda de um consenso democrático nos Estados Unidos e Europa, tem levado a políticas raciais, grupos militantes de interesse, justiceiros atirando contra os rivais – aborto, feminismo, direitos gays, etc., com hostilidade em relação uns aos outros.
2. Ecumenismo –“Império Ecumênico Deificado”. Quando há uma perda de um consenso religioso transcendente, a comunidade idolatra a “unidade”, ao mesmo tempo que acomoda uma grande diversidade. Por exemplo: quando Roma perdeu sua religião ancestral localizada e se transformou em um vasto império, instituiu o culto imperador. O Império Romano divinizado era “ecumênico”, ou seja, uma Roma mundial tolerava pessoas de todas as religiões, desde que César fosse adorado como Deus. Os cristãos que não aceitavam fazer isso eram condenados à morte. Toynbee vê algo similar no antigo Egito, Suméria, Pérsia, o Império Otomano nas dinastias imperiais da China e mesmo nas armadilhas do império mundial britânico.
Na sociedade pós-moderna de hoje também estamos vendo uma nova realidade emergente – o culto da unidade, o que acabará por resultar na perda da liberdade. As negociações sobre a “unidade global” pelos ambientalistas, os teólogos da Nova Era, os gurus de negócios, astros do rock, etc.; a economia global; de maneira preocupante, vemos um movimento ecumênico para unir todas as religiões. O “movimento ecumênico” que foi construído durante a era Modernista (por teólogos liberais) tentou unir todas as igrejas através da obliteração de suas crenças distintivas.
Note-se que o culto à unidade inevitavelmente resulta em uma perda de liberdade. A individualidade, por definição, deve ser suprimida se deve haver a união. Isto já aconteceu antes – durante a igreja primitiva, a igreja medieval, a era comunista. E pode acontecer novamente em nosso tempo, mesmo na América protestante.
3. Tecnicismo – “Idolatria do Técnico Invencível”. Uma terceira alternativa para a perda de uma fé religiosa transcendente é o endeusamento dos técnicos: a tecnologia assume as funções da religião. Os atributos divinos de onisciência e onipotência, são atribuídos à tecnologia e àqueles que a dominam. Neste cenário, os técnicos que inventam a tecnologia formarão um novo sacerdócio, com conhecimento inacessível aos leigos – aos quais a tecnologia será tão incompreensível quanto a magia. Figuras como as Steve Jobs e Bill Gates são exemplos máximos para várias centenas de outros.
Técnicos tornam-se os novos sacerdotes. “Alguns dos nossos sacerdotes especialistas são chamados de psiquiatras, outros de psicólogos, sociólogos ou estatísticos. O deus que eles servem não fala de justiça ou bondade ou misericórdia ou graça. O deus deles fala da eficiência, precisão, objetividade, competência. E é por isso que conceitos como pecado e mal desaparecem na Tecnópolis. Eles vêm de um universo moral que é irrelevante para a teologia da perícia. E assim os sacerdotes da Tecnópolis chamam ao pecado de “desvio social”, que é um conceito estatístico e “psicopatologia”, mal que é conceito médico. O pecado e o mal desaparecem porque não podem ser medidos e objetivados, e portanto não podem ser tratados por especialistas.“(Neil Postman)
Neste tipo de cultura, não avaliamos em termos de certo e errado, mas circulando um número em uma escala de dez pontos. Pessoas, sentimentos, idéias, valores todos devem ser quantificados. Estamos na era das estatísticas – pesquisas de opinião, testes padronizados e “instrumentos de avaliação” – que pretendem medir tudo, desde a qualidade do nosso trabalho à nossa condição psicológica.
Símbolos tradicionais, como os da religião, não são repudiados; ao contrário, são banalizados. Estatísticas reduzem as crenças a opiniões e padrões morais a preferências pessoais. A Palavra de Deus tem sido convenientemente ignorada como a base de todas as doutrinas e práticas.
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