terça-feira, 14 de agosto de 2012

Cópia ou matriz (II)


035. Uma ingenuidade ocidental

Os ocidentais ficaram 25 séculos reféns da cultura religiosa judaica, melhor dizendo, da literatura religiosa judaica que Roma nos impôs e depois a prisão aumentou seu número de salas com as igrejas que romperam com Roma.
Os presidiários sempre se excitam quando alguém lhes sinaliza com a possibilidade de serrar as grades e cair fora. É pena que a libertação neste caso não se dá com grades serradas e sim com o crescimento do intelecto.
Mais uma vez voltando ao caso do sr. Capra e ainda fazendo referência ao patriarcado que se deixado para trás entra no matriarcado e nada será mudado. Os métodos são os mesmos. Para livrar-se do odioso patriarcado, diz o nosso profeta Capra, a humanidade deveria inspirar-se no exemplo da civilização chinesa, cuja concepção da natureza humana, expressa, sobretudo, no I Ching, "está em flagrante contraste com a da nossa cultura patriarcal" ocidental. Buscando agora munição antipatriarcal nas páginas do I Ching, o leitor encontrará, no hexagrama 37, as seguintes recomendações: "A esposa deve ser sempre guiada pela vontade do senhor da casa, isto é, pelo pai, pelo marido ou pelo filho adulto. O lugar dela é dentro de casa". A vida que a feminista Betty Friedan pediu a Deus. Aliás, segundo informa Marcel Granet no clássico La Civilisation Chinoise (Livro I, Cap III) o feudalismo chinês, período no qual se redigiu o grosso dos comentários do I Ching, "repousa sobre o reconhecimento do predomínio masculino". A China, a que o sr. Capra se refere, não deve portanto ser a mesma que os geógrafos profanos conhecem por esse nome.
O que o sr. Capra não pode mesmo é ser acusado de facciosismo sinófilo, pois, se ele rejeita a lógica ocidental, nem por isto se curva às exigências da oriental. Segundo ele, o yang representa a razão analítica, que divide, e o yin a intuição, que unifica. Os chineses, nada entendendo destas sutilezas, representaram o divisivo yang por um traço contínuo, e o unificante yin por um traço dividido ao meio. No futuro da Nova Era, as edições do I Ching virão devidamente retificadas.
Enquanto essas edições retificadas não aparecem, o sr. Capra já vai tratando, por conta, de introduzir no pensamento chinês umas modificações mais sérias. Ele diz, por exemplo, que na civilização chinesa o homem não procura dominar a natureza, mas integrar-se nela. Novamente, a sabedoria chinesa do sr. Capra pegou a China desprevenida: um chinês nem mesmo entenderia essa frase, pela razão de que na sua língua não há uma palavra que signifique "natureza" no sentido ocidental, isto é, ao mesmo tempo o mundo visível e a ordem invisível que o governa (ambiguidade que as línguas modernas herdaram do grego physis). O chinês é nisto, com o perdão da palavra, mais "analítico": tem um termo para designar o mundo visível (khien), e um outro (khouen) para a ordem invisível. Para compensar, o mundo visível ou khien abrange, "sinteticamente", tanto a natureza terrestre quanto a sociedade humana. O sr. Capra não diz a qual das duas "naturezas" o homem deveria integrar-se, mas é claro que ninguém poderia integrar-se em ambas simultaneamente e de um mesmo modo. Os antigos chineses já haviam advertido isto, e resolveram a contradição propondo uma dualidade de atitudes para fazer face a esse duplo aspecto da natureza: o sábio, diz o I Ching, deve buscar ativamente integrar-se na ordem invisível ou khouen (chamada por isto "perfeição ativa") e contornar suavemente as exigências da natureza terrestre (khien ou "perfeição passiva" ). Dito de outro modo: integrar-se na ordem celeste, integrando em si e superando dialeticamente a ordem terrestre (e portanto absorvendo-a, por sua vez, na ordem celeste). O "celeste" e o "terrestre", nesse sentido, identificam-se respectivamente ao dharma e ao kharma da tradição hindu. O homem não se "integra" no kharma, porém "absorve-o" na medida em que se integra no dharma: livra-se do peso da terra na medida em que atende ao apelo celeste. Exatamente no mesmo sentido diz o cristianismo que o homem vence a necessidade natural na medida em que segue as vias da Providência. Não é bem o que diz o sr. Capra.

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