035. Uma ingenuidade ocidental
Os ocidentais ficaram 25 séculos reféns da cultura religiosa judaica, melhor dizendo, da literatura religiosa judaica que Roma nos impôs e depois a prisão aumentou seu número de salas com as igrejas que romperam com Roma.
Os presidiários sempre se excitam quando alguém lhes sinaliza com a possibilidade de serrar as grades e cair fora. É pena que a libertação neste caso não se dá com grades serradas e sim com o crescimento do intelecto.
Mais uma vez voltando ao caso do sr. Capra e ainda fazendo referência ao patriarcado que se deixado para trás entra no matriarcado e nada será mudado. Os métodos são os mesmos. Para livrar-se do odioso patriarcado, diz o nosso profeta Capra, a humanidade deveria inspirar-se no exemplo da civilização chinesa, cuja concepção da natureza humana, expressa, sobretudo, no I Ching, "está em flagrante contraste com a da nossa cultura patriarcal" ocidental. Buscando agora munição antipatriarcal nas páginas do I Ching, o leitor encontrará, no hexagrama 37, as seguintes recomendações: "A esposa deve ser sempre guiada pela vontade do senhor da casa, isto é, pelo pai, pelo marido ou pelo filho adulto. O lugar dela é dentro de casa". A vida que a feminista Betty Friedan pediu a Deus. Aliás, segundo informa Marcel Granet no clássico La Civilisation Chinoise (Livro I, Cap III) o feudalismo chinês, período no qual se redigiu o grosso dos comentários do I Ching, "repousa sobre o reconhecimento do predomínio masculino". A China, a que o sr. Capra se refere, não deve portanto ser a mesma que os geógrafos profanos conhecem por esse nome.
O que o sr. Capra não pode mesmo é ser acusado de facciosismo sinófilo, pois, se ele rejeita a lógica ocidental, nem por isto se curva às exigências da oriental. Segundo ele, o yang representa a razão analítica, que divide, e o yin a intuição, que unifica. Os chineses, nada entendendo destas sutilezas, representaram o divisivo yang por um traço contínuo, e o unificante yin por um traço dividido ao meio. No futuro da Nova Era, as edições do I Ching virão devidamente retificadas.
Enquanto essas edições retificadas não aparecem, o sr. Capra já vai tratando, por conta, de introduzir no pensamento chinês umas modificações mais sérias. Ele diz, por exemplo, que na civilização chinesa o homem não procura dominar a natureza, mas integrar-se nela. Novamente, a sabedoria chinesa do sr. Capra pegou a China desprevenida: um chinês nem mesmo entenderia essa frase, pela razão de que na sua língua não há uma palavra que signifique "natureza" no sentido ocidental, isto é, ao mesmo tempo o mundo visível e a ordem invisível que o governa (ambiguidade que as línguas modernas herdaram do grego physis). O chinês é nisto, com o perdão da palavra, mais "analítico": tem um termo para designar o mundo visível (khien), e um outro (khouen) para a ordem invisível. Para compensar, o mundo visível ou khien abrange, "sinteticamente", tanto a natureza terrestre quanto a sociedade humana. O sr. Capra não diz a qual das duas "naturezas" o homem deveria integrar-se, mas é claro que ninguém poderia integrar-se em ambas simultaneamente e de um mesmo modo. Os antigos chineses já haviam advertido isto, e resolveram a contradição propondo uma dualidade de atitudes para fazer face a esse duplo aspecto da natureza: o sábio, diz o I Ching, deve buscar ativamente integrar-se na ordem invisível ou khouen (chamada por isto "perfeição ativa") e contornar suavemente as exigências da natureza terrestre (khien ou "perfeição passiva" ). Dito de outro modo: integrar-se na ordem celeste, integrando em si e superando dialeticamente a ordem terrestre (e portanto absorvendo-a, por sua vez, na ordem celeste). O "celeste" e o "terrestre", nesse sentido, identificam-se respectivamente ao dharma e ao kharma da tradição hindu. O homem não se "integra" no kharma, porém "absorve-o" na medida em que se integra no dharma: livra-se do peso da terra na medida em que atende ao apelo celeste. Exatamente no mesmo sentido diz o cristianismo que o homem vence a necessidade natural na medida em que segue as vias da Providência. Não é bem o que diz o sr. Capra.
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