sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Suicidas (II)


Quem seria o suicida?

Para o psiquiatra Augusto Cury, o suicida não é aquele que busca a morte, mas aquele que desiste de viver porque sua sede de vida não foi aplacada.
Grosso modo, parece decifrada a charada: o tão grande ímpeto de viver rompe um limite nessas pessoas. É como aquele apressado que, para ir mais antes ao seu fim, se torna vulnerável aos acidentes.
Eu não sou um técnico autorizado a falar da vida ou da morte, mas entendo que reúno experiências suficientes para sugerir que a crise humana que também se revela nos suicídios se estabelece quando por alguma razão esquecemos de cuidar dos cultivos inerentes à vida que queríamos quando atropelamos tudo na corrida intra-uterina até encontrar a outra metade e percebemos que por alguma razão a vida se esvai. Isso vale para comer errado, embriagar-se, drogar-se, oferecer-se aos perigos, deprimir-se...
É novamente Cury que contribui com a ciência: educados como somos, formatos como quis a sociedade, não temos preparo para enfrentar vicissitudes. Para tudo, segundo a formação, há um pai, um tutor, um salvador. Essas plantas de estufa, criadas nesses “ambientes controlados” não têm capacidade de chegar ao “clima geral” sem se sentirem frustradas, decepcionadas, levadas a uma competição predatória sem nenhum compromisso com a vida, nem mesmo com a sua própria.
De sã consciência, o que leva alguém a relaxar com os cuidados inerentes à sua própria existência? Como cuidadores de crianças não permitiríamos que passassem fome ou comessem coisas impróprias; não daríamos bebidas alcoólicas para uma criança beber; nem serviríamos drogas a ela; não deixaríamos ela atravessar uma rua movimentada submetendo-se aos perigos de atropelamentos. E por que fazemos coisas piores que isso com a “criança” que somos?
Só uma resposta parece caber: perdemos o horizonte, desviamos-nos da razão de ser. E isso pode ser debitado às religiões e à escola, que por muitos séculos cuidaram de ensinar para o mercado e a dar atenção à riqueza material sem investir na riqueza espiritual. Quantos suicidas você conhece que ceifaram suas vidas porque a vida econômica foi mal? Claro, iremos encontrar talvez maior número de suicidas abastados aos quais faltou objetivo de vida. Isso não muda o raciocínio, o deus dos dois grupos de suicidas é o mesmo: o dinheiro.
A segunda hipótese para tratar tão perversamente a vida é a certeza de que tudo acaba no túmulo. Fomos colocados na arena da vida dependentes de salvadores que nos levem a algum lugar e quando tudo sai errado entendemos que fomos abandonados. O vazio é terrível.
A falta de uma educação religiosa e escolar capaz da renúncia aos salvadores ou tutores, entregando ao próprio ser humano o cultivo dos seus jardins existenciais, mudaria tudo, provocaria o desejo de superar-se por conta própria e dignar-se perante os desafios.
Não é tudo o que se poderia dizer, mas é um bom começo para ir entendendo por que nos perdemos nos caminhos da vida.

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