O Filósofo Prático da Reverência à Vida
Renato Costa
rsncosta@terra.com.br
Ao longo dos milênios, muitos foram os Espíritos adiantados que encarnaram no Planeta que, com palavras e exemplos, fazendo do Amor à Vida um de seus mais importantes ensinamentos.
Para não nos estendermos em uma longa lista, vamos apenas relatar uma pequena história.
No final do século passado, no dia 14 de janeiro de 1875, nascia na Alsácia, região na fronteira entre a França e a Alemanha, que na época pertencia à Alemanha e hoje, à França, um menino, filho de um pastor luterano.
Esse menino foi chamado de Albert, nome alemão que corresponde a Alberto. Desde cedo se manifestou talentoso e dedicado, tendo aos 24 anos obtido doutorado em filosofia e aos 25, grau avançado em teologia, ao mesmo tempo em que se tornava o maior especialista mundial na construção de órgãos (musicais).
Em 1904, portanto, com 29 anos, deparou com um artigo em uma revista pedindo médicos voluntários para a colônia francesa do Gabão, na África. A leitura desse artigo viria a mudar a sua vida. Sentindo-se como que convocado para uma missão, iniciou de imediato a estudar medicina, concluindo que seu desejo era trabalhar com as mãos, de forma a por em prática aquilo que expressava com suas palavras como teólogo, estudioso de religião.
Graduado em medicina com 38 anos, seu pedido de adesão como médico na Sociedade Missionária que recrutava médicos para a então África francesa foi rejeitado, sob a alegação que não queriam teólogos e pensadores para atrapalhar os trabalhos de assistência humanitária junto aos nativos, com idéias e pregações que de nada lhes valeriam. Pois bem, longe de esmorecer em sua empreitada, o Dr. Albert Schweitzer, pois este era seu nome, agora já casado com uma amiga que sempre o apoiara, partiu para angariar fundos para montar um hospital na África e sustentá-lo durante dois anos. Ao cabo desse esforço incansável, partiu para o Gabão em 1913 para construir o famoso hospital de Lambaréné, que existe até hoje, atendendo gratuitamente à população carente de uma enorme região, hoje patrocinado pela Sociedade que leva o nome do seu grande fundador.
Foi esse missionário singular, que dedicou sua vida até desencarnar em 1965, com 90 anos, a salvar vidas em um país pobre e estranho e a minorar sofrimentos dos abandonados pela sorte, que forjou a tese filosófica a que chamou de Reverência pela Vida em Ação.
Para concluir esse trabalho, deixamos a palavra com o Dr. Albert
Schweitzer, falando sobre a sua tese de Amor à Vida:
"Eu sou vida que quer viver, no meio de vida que quer viver. Como em minha própria vontade-de-viver existe um anseio por uma vida mais ampla e prazerosa, com receio do aniquilamento e da dor; assim também se dá com a vontade-de-viver à toda a minha volta, quer ela consiga se expressar diante de mim, quer permaneça muda. A vontade-de-viver está presente em toda parte, assim como em mim. Se eu sou um ser pensante, devo enxergar vida além da minha com a mesma reverência, pois eu devo saber que ela deseja completude e desenvolvimento com tanta profundidade quanto eu mesmo desejo.
E isso é verdade tanto visto do ponto de vista físico quanto espiritual. A bondade, pela mesma medida, é o salvamento ou a ajuda da vida, tornar possível a toda vida que eu puder ajudar o alcançar de seu mais alto desenvolvimento.
Em mim, a vontade-de-viver ficou sabendo da existência de outras
vontades-de-viver. Existe nela uma ânsia de chegar à unidade consigo mesma, de se tornar universal. Não posso senão aceitar o fato de que a vontade-de-viver em mim se manifesta como vontade-de-viver que deseja se tornar una com outras vontades-de-viver.
A Ética consiste no meu experimentar de uma compulsão por mostrar a toda vontade-de-viver a mesma reverência que mostro à minha própria. Um homem é verdadeiramente ético somente quando ele obedece à compulsão por ajudar toda a vida que ele é capaz de assistir e devia ferir qualquer coisa que viva.
Se eu salvo um inseto de uma poça, a vida se dedicou à vida, e a divisão da vida contra ela mesma acabou. Quando quer que minha vida se devote de qualquer modo à vida, minha vontade-de-viver finita experimenta a união com a vontade infinita onde toda a vida é una.
Uma ética absoluta pede a criação da perfeição nesta vida. Ela não pode ser completamente alcançada; mas isso realmente não importa. Neste sentido, a reverência pela vida é uma ética absoluta. Ela faz com que somente a manutenção e a promoção da vida se classifiquem como boas. Toda destruição da vida e agressão a ela, sob quaisquer circunstâncias, é por ela condenada como má. É verdade, na prática somos forçados a escolher. Há momentos em que temos que decidir arbitrariamente quais formas de vida, e até mesmo quais indivíduos particulares, teremos que salvar, e quais iremos destruir. Entretanto, o princípio de reverência à vida é universal e absoluto.
Uma tal ética não elimina para o homem todos os conflitos étnicos, mas o compele a decidir por si mesmo em cada caso até que ponto ele deve permanecer ético e até que ponto ele deve se submeter à necessidade de destruir e ferir a vida. Ninguém pode decidir por ele em qual ponto, em cada ocasião, se encontra o limite extremo da possibilidade de sua persistência na preservação e na continuação da vida. Somente ele deverá julgar esta questão, deixando-se guiar por um sentimento da mais alta responsabilidade possível por outra vida. Nunca devemos nos deixar ficar cegos. Estamos vivendo na verdade quando experimentamos estes conflitos mais profundamente.
Quando quer que eu fira qualquer tipo de vida, devo estar bem seguro de que é necessário. Além do inevitável, jamais devo ir, nem mesmo com aquilo que nos pareça insignificante. O fazendeiro, que ceifou mil flores no seu campo para servir de forragem para suas vacas, deve tomar cuidado ao voltar para não arrancar, em um passatempo intencional, uma única florzinha plantada à beira do caminho, pois então ele estará cometendo um erro contra a vida sem estar sob a pressão da necessidade."
Bibliografia
Sendas Luminosas. Joanna de Angelis (espírito), psicografia de Divaldo Pereira Franco, Livraria Espírita Alvorada, Salvador, BA, 1998.Reverence for Life. Albert Schweitzer, The Albert Shweitzer Fellowship, http://www.shweitzerfellowship.org/newpage6.htm/.(Estudo originalmente apresentado em 29/09/2000 no Centro Espírita Titino Pires, em Leopoldina, MG)
rsncosta@terra.com.br
Ao longo dos milênios, muitos foram os Espíritos adiantados que encarnaram no Planeta que, com palavras e exemplos, fazendo do Amor à Vida um de seus mais importantes ensinamentos.
Para não nos estendermos em uma longa lista, vamos apenas relatar uma pequena história.
No final do século passado, no dia 14 de janeiro de 1875, nascia na Alsácia, região na fronteira entre a França e a Alemanha, que na época pertencia à Alemanha e hoje, à França, um menino, filho de um pastor luterano.
Esse menino foi chamado de Albert, nome alemão que corresponde a Alberto. Desde cedo se manifestou talentoso e dedicado, tendo aos 24 anos obtido doutorado em filosofia e aos 25, grau avançado em teologia, ao mesmo tempo em que se tornava o maior especialista mundial na construção de órgãos (musicais).
Em 1904, portanto, com 29 anos, deparou com um artigo em uma revista pedindo médicos voluntários para a colônia francesa do Gabão, na África. A leitura desse artigo viria a mudar a sua vida. Sentindo-se como que convocado para uma missão, iniciou de imediato a estudar medicina, concluindo que seu desejo era trabalhar com as mãos, de forma a por em prática aquilo que expressava com suas palavras como teólogo, estudioso de religião.
Graduado em medicina com 38 anos, seu pedido de adesão como médico na Sociedade Missionária que recrutava médicos para a então África francesa foi rejeitado, sob a alegação que não queriam teólogos e pensadores para atrapalhar os trabalhos de assistência humanitária junto aos nativos, com idéias e pregações que de nada lhes valeriam. Pois bem, longe de esmorecer em sua empreitada, o Dr. Albert Schweitzer, pois este era seu nome, agora já casado com uma amiga que sempre o apoiara, partiu para angariar fundos para montar um hospital na África e sustentá-lo durante dois anos. Ao cabo desse esforço incansável, partiu para o Gabão em 1913 para construir o famoso hospital de Lambaréné, que existe até hoje, atendendo gratuitamente à população carente de uma enorme região, hoje patrocinado pela Sociedade que leva o nome do seu grande fundador.
Foi esse missionário singular, que dedicou sua vida até desencarnar em 1965, com 90 anos, a salvar vidas em um país pobre e estranho e a minorar sofrimentos dos abandonados pela sorte, que forjou a tese filosófica a que chamou de Reverência pela Vida em Ação.
Para concluir esse trabalho, deixamos a palavra com o Dr. Albert
Schweitzer, falando sobre a sua tese de Amor à Vida:
"Eu sou vida que quer viver, no meio de vida que quer viver. Como em minha própria vontade-de-viver existe um anseio por uma vida mais ampla e prazerosa, com receio do aniquilamento e da dor; assim também se dá com a vontade-de-viver à toda a minha volta, quer ela consiga se expressar diante de mim, quer permaneça muda. A vontade-de-viver está presente em toda parte, assim como em mim. Se eu sou um ser pensante, devo enxergar vida além da minha com a mesma reverência, pois eu devo saber que ela deseja completude e desenvolvimento com tanta profundidade quanto eu mesmo desejo.
E isso é verdade tanto visto do ponto de vista físico quanto espiritual. A bondade, pela mesma medida, é o salvamento ou a ajuda da vida, tornar possível a toda vida que eu puder ajudar o alcançar de seu mais alto desenvolvimento.
Em mim, a vontade-de-viver ficou sabendo da existência de outras
vontades-de-viver. Existe nela uma ânsia de chegar à unidade consigo mesma, de se tornar universal. Não posso senão aceitar o fato de que a vontade-de-viver em mim se manifesta como vontade-de-viver que deseja se tornar una com outras vontades-de-viver.
A Ética consiste no meu experimentar de uma compulsão por mostrar a toda vontade-de-viver a mesma reverência que mostro à minha própria. Um homem é verdadeiramente ético somente quando ele obedece à compulsão por ajudar toda a vida que ele é capaz de assistir e devia ferir qualquer coisa que viva.
Se eu salvo um inseto de uma poça, a vida se dedicou à vida, e a divisão da vida contra ela mesma acabou. Quando quer que minha vida se devote de qualquer modo à vida, minha vontade-de-viver finita experimenta a união com a vontade infinita onde toda a vida é una.
Uma ética absoluta pede a criação da perfeição nesta vida. Ela não pode ser completamente alcançada; mas isso realmente não importa. Neste sentido, a reverência pela vida é uma ética absoluta. Ela faz com que somente a manutenção e a promoção da vida se classifiquem como boas. Toda destruição da vida e agressão a ela, sob quaisquer circunstâncias, é por ela condenada como má. É verdade, na prática somos forçados a escolher. Há momentos em que temos que decidir arbitrariamente quais formas de vida, e até mesmo quais indivíduos particulares, teremos que salvar, e quais iremos destruir. Entretanto, o princípio de reverência à vida é universal e absoluto.
Uma tal ética não elimina para o homem todos os conflitos étnicos, mas o compele a decidir por si mesmo em cada caso até que ponto ele deve permanecer ético e até que ponto ele deve se submeter à necessidade de destruir e ferir a vida. Ninguém pode decidir por ele em qual ponto, em cada ocasião, se encontra o limite extremo da possibilidade de sua persistência na preservação e na continuação da vida. Somente ele deverá julgar esta questão, deixando-se guiar por um sentimento da mais alta responsabilidade possível por outra vida. Nunca devemos nos deixar ficar cegos. Estamos vivendo na verdade quando experimentamos estes conflitos mais profundamente.
Quando quer que eu fira qualquer tipo de vida, devo estar bem seguro de que é necessário. Além do inevitável, jamais devo ir, nem mesmo com aquilo que nos pareça insignificante. O fazendeiro, que ceifou mil flores no seu campo para servir de forragem para suas vacas, deve tomar cuidado ao voltar para não arrancar, em um passatempo intencional, uma única florzinha plantada à beira do caminho, pois então ele estará cometendo um erro contra a vida sem estar sob a pressão da necessidade."
Bibliografia
Sendas Luminosas. Joanna de Angelis (espírito), psicografia de Divaldo Pereira Franco, Livraria Espírita Alvorada, Salvador, BA, 1998.Reverence for Life. Albert Schweitzer, The Albert Shweitzer Fellowship, http://www.shweitzerfellowship.org/newpage6.htm/.(Estudo originalmente apresentado em 29/09/2000 no Centro Espírita Titino Pires, em Leopoldina, MG)
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