domingo, 23 de setembro de 2012

Suicidas (IV)


Quem precisa de salvador

A maioria das religiões conhecidas vende a idéia do salvador. Existem salvadores terrenos e salvadores celestiais. Os terrenos cobram propina em dinheiro; os celestiais trabalham sob trocas. Ao que dizem salvam-se aqueles que levam dinheiro aos seus tutores terrenos e salvam-se aqueles que se tornam agradáveis “aos olhos” dos salvadores celestiais.
Uma velha herança dos tempos mitológicos em que os deuses celestes governavam a vida usando a intermediação do rei ou faraó e que, nas relações com os súditos, estes pagavam aos reis o dízimo – herdado pelas igrejas neo-pentecostais, dinheiro este que vai parar na conta do pastor, também, depois de pagar o aluguel, a luz, a água do templo.
Tutelados pelo hoje pastor – representante do faraó – hoje bispo da igreja atual, os hoje súditos são aconselhados a serem fiéis ao deus celeste para dele obterem as bênçãos de que precisam para uma vida benfazeja.
O tutor terreno intermedeia a ação do salvador celeste. O súdito hoje no papel de fiel servidor ou obreiro da nova oficina imperial, entrega todo o comando da vida àqueles que entende serem os seus protetores.
Numa palavra: são as crianças com 40, 50, 60 ou mais anos de idade suplicando a mão de alguém para fazer a travessia da vida.
Mas, não é só. A metáfora das igrejas neo-pentecostais é algo que cabe mais ostensivamente no exemplo, mas a cultura de busca do salvador está em vigor também na igreja de Roma, nas nossas relações com o prefeito, com o governador, com a presidenta. Para quantos miseráveis deste nosso país a bolsa família é a bênção do deus celeste a eles repassados pela presidenta? Para quantos que você conhece a vida só está bem “pela graça de Deus”?
Quero me fazer compreender para que não me acusem de outra coisa que não sou: a crítica é dirigida a quem entrega o seu destino a um salvador terreno ou celeste e se encolhe a espera das bênçãos caídas dos céus. A crítica atinge todas aquelas porções humanas infelizmente abafadas pelas cadeias mentais erguidas por Roma, copiadas da mitologia, desviadas da libertação trazida por Cristo e que atingiu em cheio as nações colonizadas por Espanha e Portugal.
Naqueles países em que o Iluminismo (do século XVIII) produziu seus efeitos esta cultura praticamente foi substituída e as pessoas estão convencidas de que pastores, sacerdotes, rabinos ou outros intermediários de Deus são plenamente dispensáveis desde que cada um decida fazer a conexão diretamente.
O Deus não é só celeste, está presente na alma de cada um. Qualquer estrutura de poder religioso ou profano que se coloque na intermediação das relações do homem com o sagrado, nada mais é do que escravidão, um jeito novo de fazer o velho sistema permanecer dominando a humanidade. E, claro, não há necessidade de dizer: está justamente nesses bolsões culturais o pior atraso intelectual, a pior pobreza, os maiores currais eleitorais dos novos e velhos coronéis, sempre com a intermediação do representante da igreja, seja ela qual for.
São esses homens e mulheres de muitas nações, principalmente de cultura ibérica, que precisam de salvador, na verdade, libertador.
São estas criaturas que, de certa forma, praticam suicídio induzido contra a sua própria alma. Delas serão cobradas pesadas contas por se deixarem ludibriar por espertos aproveitadores da ignorância mesmo tendo as luzes da libertação piscando o todo tempo bem diante dos seus olhos.
Quanta mentira histórica, quanta lenda religiosa, quanto engodo filosófico usados por estes dominadores para manter seus fiéis fielmente subjugados aos seus interesses em nome do maior libertador que tivemos em todos os tempos!!! Como é triste presenciar estas barbaridades cometidas contra a vida e a alma de tantas pessoas, sem a menor cerimônia, praticadas em nome de Jesus.  

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