Belém, Galiléia, Jerusalém, Palestina, tudo isso fica ao lado de Israel, no Oriente Médio. Queiramos ou não, o Oriente Médio é a encruzilhada de três continentes: África, Ásia e Europa, o que lhe dá uma importância particular em relação ao mundo. E desde muitos séculos. Para completar, é hoje a região detentora de uma das maiores riquezas energéticas do planeta, num contraste assombroso entre a superfície desértica arenosa e o subsolo pródigo em jazidas de petróleo. Um dia vai acabar, mas está lá.
Os contrastes também se reproduzem nos homens. Apesar de apresentar um dos mais altos índices de renda per capita do mundo, o Oriente Médio abriga no seu seio uma população com números desgraçadamente vergonhosos em termos de miséria e subdesenvolvimento.
As somas fabulosas da receita com a venda do petróleo, não são investidas no bem-estar dos habitantes locais; vão para as contas secretas dos bancos multinacionais, compram ações de poderosas empresas de outros continentes e financiam bacanais inacabados dos seus privilegiados detentores do poder político e econômico. Nem mesmo o seu único e principal produto econômico, o petróleo, é refinado localmente a fim de gerar empregos e melhorar o desempenho da economia; é enviado como produto primário para refino fora da região.
Em virtude de sua importância estratégica, ao menos enquanto o petróleo ocupe lugar de destaque como fonte energética, os países da região e seu povo continuarão alvos dos interesses de poderosos cartéis internacionais e submetidos às mais absurdas situações, inclusive pelos problemas culturais e religiosos de sua gente. E quando o petróleo deixar de ter importância, como será?
Berço das pioneiras civilizações urbanas do mundo e centro de fantásticas epopéias nascidas sob as luzes de Cartago, Babilônia, Bagdá, Jerusalém e Damasco, hoje a região não teria como resistir à décima parte do trabalho de um Messias idêntico a Jesus.
Os seus cerca de 140 milhões de habitantes, distribuídos entre Turquia, Síria, Líbano, Israel, Jordânia, Arábia Saudita, Iêmen Democrático, Iêmen, Omã, Catar, Bahrein, Kwait, Iraque, Irã e Afeganistão, são majoritariamente islâmicos, religião que a cada dia se torna a causa e o efeito dos principais problemas sociais e políticos dessa gente.
A particularidade desse povo nasce de sua primeira divisão, provocada pela referida aliança de Deus com um povo específico dentre os primos árabes, através de Abraão, que foi o povo hebreu nômade. Ao prometer-lhe uma terra onde, se quisesse e pudesse, poderia plantar raízes e organizar uma sociedade não itinerante, Deus Jeová assinalou o primeiro conflito social entre os primos árabes. Os hebreus passaram a não aceitar, desde 900 anos antes de Jesus para cá, a designação comum a todos. Por serem habitantes de Judá, passaram a autodenominar-se judeus.
É importante destacar que apesar de todos os envolvimentos da região com Jesus, não é a Jesus que eles seguem. Os judeus não o aceitam como o messias anunciando pelo Antigo Testamento. Desde o século III, seu Deus mudou de Javéh ou Jeová para Adonai (Senhor). Os árabes, mais numerosos, cerca de 500 milhões no mundo todo, seguem a Maomé, um ex-chefe de um bando armado, que se transformou em grande líder e seu profeta maior.
Os islamitas, como também são chamados os membros da religião fundamentalista maometana, transferem para a religião todas as questões ligadas ao governo, à economia, à política, à educação... A cada desentendimento mesmo em família, surge um novo dirigente espiritual, uma nova seita, um princípio de guerrilha. E se o desentendimento ocorre com os primos judeus, o barulho é maior ainda; o mundo todo se envolve na rusga, porque o mundo todo acolhe judeus e estes são solidários com os que ficaram em Israel.
O Oriente Médio viveu muitos séculos fechado em si mesmo e nada tem da cultura ocidental. Pelo contrário, é vítima dela.
No passado, através do Império dos Omíadas, foram os árabes que invadiram a Europa (de 714 a 1212 d.C.) e deixaram profundas marcas de sua etnia e cultura, principalmente na Ibéria e, por extensão na Ibero-América.
Tirando-se, porém, o brilho dessa época, os árabes não conseguem contabilizar outras conquistas políticas: eles foram sistematicamente invadidos por outros povos. Hoje a invasão não é vista, é mascarada. Quem detém o poder de abrir ou fechar as torneiras do petróleo árabe é, no fundo, também dono do país. E os donos das megaempresas multinacionais do Ocidente são, efetivamente, os invasores. O invasor contemporâneo nem sempre coloca os seus generais no solo invadido e no interior do palácio submetido. O invasor contemporâneo fica com a chave do cofre.
Assim, invadidos, invadindo-se mutuamente, enfraquecidos em sua identidade racial, política, religiosa e cultural pela prática do anticorporativismo, os habitantes da região natal de Jesus têm os olhos ou no passado ou no futuro. Para os muçulmanos, o progresso está atrás, mais de 1.400 anos atrás com Maomé. Para os judeus, o progresso está no futuro, com o messias que virá reinar em Jerusalém e dominar o mundo. É difícil, entre eles, encontrar uma atividade onde não se misture nacionalismo, racismo, religião, governo e forças militares ou para-militares.
O primeiro grande choque do mundo árabe com o ocidente, foi a campanha de Napoleão Bonaparte (século XVIII). O segundo foi com a Guerra do Golfo Pérsico (1991). Foi quando o triunfante e dinâmico mundo ocidental se bateu contra o imóvel, saudosista e prisioneiro do passado mundo muçulmano.
Por se tornar algo ocidental, o Xá do Irã foi acusado de “perder a alma” e alijado do poder. Em seu lugar assumiu o autêntico valorizador das tradições de seu povo, Aiatolá Khomeini, já sucedido por discípulos seus também autênticos. Uma grande virada está sendo aguardada ali.
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