Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus: tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus. (Mateus 16, 16-19)
Sob a coordenação de Pedro, presentes os outros dez, mais Maria e seus demais filhos, no andar superior de uma casa situada no Monte das Oliveiras, registra a Bíblia, houve uma hora mística. É o que está escrito no livro Ato dos Apóstolos I 2, 1-12. Todos foram visitados pelo Espírito Santo e, incorporados, falavam inclusive línguas estrangeiras.
Havia muitos populares ali. No meio deles, os debochados. “Isto se trata de embriaguez!”, disse alguém. Pedro se levanta em defesa do grupo e, com a voz forte de um pescador saudável, repele a acusação citando Joel 3, 1-5, do Antigo Testamento: Acontecerá nos últimos dias (é Deus que fala através do profeta) derramarei do meu Espírito sobre todo ser vivo: profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas. Os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos sonharão. Sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei naqueles dias do meu espírito e profetizarão. Farei prodígios em cima no céu e milagres embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça...
E Pedro confirma: Jesus, havendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, derramou-o como vós vedes e ouvis.
Isto é, os membros da reunião recebiam espíritos, incorporavam espíritos, na melhor versão explicativa de uma sessão espírita, como entendem os milhões de espiritistas pelo mundo a fora.
Para milhões de cristãos não impressionados pelo pensamento religioso que afasta esse entendimento, não resta nenhuma dúvida de que os seguidores de Jesus praticavam, ao menos ali naquela primeira reunião de importância para o começo da igreja (entregue a Padro), algo muito espiritual. Perseguidos os seus seguidores tanto quanto o fora Jesus, pelos poderosos da época, sem direito à defesa, os membros da nova fé ensinada por Jesus, advogado dos pobres, manso e humilde, encaminharam-se para as catacumbas, passaram a promover suas reuniões de fé nos esconderijos, a exemplo do que já ocorreu com os umbandistas, kimbandistas e outros, em tempos passados. A Igreja de Jesus buscava respostas no plano da Justiça e da Libertação, com forte apelo espiritual. Existem citações suas ao Pai, mas são extraordinariamente mais numerosas as suas citações ao Espírito Santo. Só não vê quem não quer, como Ele mesmo ensinou: Têm olhos e não vêem!
Pesa muitíssimo também o fato de que Roma mandou crucificar Pedro e o colocou de cabeça para baixo na cruz.
Uma ponte chamada “Paulo”
O cidadão judeu, nascido na Turquia, colaborador do Império Romano e perseguidor de cristãos, chamado Saulo de Tarso, tem uma visão durante a qual se encontra com Jesus ressuscitado e resolve inverter a sua vida. É evidente que após o retorno de Jesus à vida, os dirigentes romanos tomaram conhecimento do fato. Pilatos já estava mordido desde a escuridão (ausência do sol) às três horas da tarde daquela sexta-feira da crucificação de Jesus, o que, como vimos, apressou sua decisão de autorizar a retirada do corpo de Jesus da cruz, para ser entregue ao tio, José de Arimatéia. Para salvaguardar-se, colocou sentinelas à entrada do túmulo, numa visível providência para evitar aglomerações e manifestações de fanáticos.
Paulo inicialmente no Oriente Médio, passa a pregar o cristianismo um pouco à revelia de Pedro e dos demais apóstolos e se vale de suas qualidades de orador e escritor. Por conta disso, entra em colisão com Thiago, irmão de Jesus. Passa a dizer aos gentios que a fé de Jesus não exige ritos, oferendas, circuncisão e dízimos, portanto, alheia às tradições judaicas. Paulo foi o grande difusor da proposta de Jesus e certamente um dos canais pelos quais os romanos, como ele, descobriram o Caminho Cristão. A primeira igreja de Jesus se chamava Caminho, a propósito da sua citação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Caminho que poderia ser substituído por Amor, porque Amor, Verdade e Vida, são exatamente a mesma coisa, não podem ser minimizados: são totais ou não são.
Os romanos, cuja fé ainda se envolvia com os deuses do Olimpo, mas já contaminada pela cultura egípcia, através do culto a Íris e Osíris e, portanto, já incluindo a salvação da alma – centro da proposta de Jesus – passaram a sentir a necessidade de aceitar uma nova dimensão para a vida. Foi assim que a fé cristã se espalhou pela Europa, através de Roma e Atenas.
O que houve?
A história dos hebreus, dentro da Bíblia, é uma sucessão infinita de comunicações espirituais acompanhadas da confirmação pelos fatos reais. Começa com Abraão e continua com todos os demais profetas, desembocando na figura de Maria e do seu filho Jesus, tudo calculadamente previsto e anunciado, escrito e registrado, feito e testemunhado.
Com a ajuda espiritual e o concurso de anjos de luz, homens e mulheres da época souberam da vinda de João Batista, da reencarnação de Elias, da chegada de Jesus. Na qualidade de profeta e interlocutor de Deus, João Batista, portador de faculdades para-normais, ao batizar Jesus, o anuncia para a platéia como preparador de uma nova aliança entre todos os homens e Deus.
Por parte dos judeus é compreensível a resistência quanto a Jesus, pois ele próprio anunciou-se como ruptura entre o passado e o futuro. Mas não se faz compreensível a tentativa de vincular a fé trazida por Jesus com a fé judaica. Elas são incompatíveis desde o instante primeiro quando Jesus desvinculou-se da solução imediata (mandar embora os romanos) e anunciou quebrar o vínculo com os seus tutores e oferecer um canal direto de contato com o Pai, o que incomodou bastante os sacerdotes e as autoridades religiosas judaicas e romanas.
As autoridades romanas, distantes da Galiléia, no século IV, repetiram o equívoco: a igreja de Jesus ficou sendo uma seqüência da igreja judaica, como de fato não aconteceu porque de fato não é.
E a ciência e a filosofia, que poderiam ter contribuído para a elucidação, omitiram-se, acomodaram-se. Hoje retorna ao tema. Estamos metidos num paradigma dito materialista e isto tem feito muito mal à humanidade. Há séculos se tenta trabalhar para negar essa parte da obra de Jesus com o apoio de cientistas ateus. Pode-se até dizer de modo diferente: cientistas ateus tentam trabalhar para negar essa evidência com o apoio de algumas igrejas. A Igreja de Roma, chegou a patrocinar a Inquisição e, por quase 500 anos, fez mergulhar na escuridão das masmorras a prática espiritualista ensinada por Jesus. O número de pessoas sacrificadas em nome daquele maldito instituto, proporcional aos tempos atuais chegou a 22 milhões de execuções.
O ato de negar que a proposta da Igreja Cristã esteve e está na prática da messe espiritual, é o mesmo que negar a Jesus, mudar o curso de sua doutrina. Foi pela proibição do Jesus espiritual nos altares das igrejas cristãs, que se garantiu a proliferação dos terreiros e igrejas marginais. Terreiros e igrejas marginais também proibidos, perseguidos, como há 2.000 anos. E, por isso, fortalecidos.
Isaías advertiu 700 anos antes de Jesus, como registra Marcos 7, 6-7: Este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim; em vão me prestam culto, ensinando doutrinas e preceitos humanos. Disse também que Deus enviaria o Servo em quem depositarei o meu Espírito para que leve às nações a verdadeira religião (Isaías 42, 1).
Aos homens cegos, surdos e mudos para a mensagem de Deus, em Isaías 65, 15 está o aviso: Sereis uma maldição entre os meus eleitos, enquanto meus servos receberão um novo nome.
O mesmo Isaías, em 59, 21 fala da nova aliança a ser firmada com o novo Messias: Eis a minha aliança com eles, diz o Senhor: ‘meu espírito que sobre ti repousa, e minhas palavras que coloquei em tua boca, não deixarão teus lábios, nem os dos teus filhos, nem os de seus descendentes...’
Ressuscitado, Jesus entregou aos seus discípulos a última mensagem de sua missão na Terra: Então lhes abriu a inteligência para compreenderem as Escrituras e lhes disse: ... Eu vos mandarei o que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto (Lucas 24, 44-49).
Então, para quem quer compreender, não restam mais dúvidas, a Igreja Cristã começou com uma sessão espiritual em que, no mínimo, os discípulos estiveram incorporados. Ali também havia mulheres, dentre elas Maria. O apóstolo Lucas, que é o autor de Atos dos Apóstolos, escreve em 2, 3-4: “Apareceram-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e repousaram em cada um deles. Ficaram todos (TODOS!) cheios do Espírito Santo”. O texto é global, não excludente. Todos.
Quem tem olhos e ouvidos e quer ver (ler) e ouvir, vê (lê) e ouve o que não se tem como esconder e subtrair: a Igreja de Jesus recebeu quatro fundamentos indiscutivelmente claros, a saber:
1. Cunho espiritual;
2. Promoção da justiça;
3. Emprego da solidariedade;
4. Prática da fraternidade.
Os homens mudaram isso? Sim! Inúmeras igrejas ditas cristãs se apropriaram do nome de Jesus e se intitulam herdeiras de sua doutrina, para colocarem-no como patrono de crenças d’Ele muito distanciadas. Por isso, se tornaram malditas, enquanto que os fiéis seguidores de Jesus receberam um novo nome.
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