A cadeia foi posta.
Ela não existe.
A Travessia consiste em retirar as grades e ganhar asas.
019. A Repressão
Os seres humanos são capazes de perceber muito mais coisas que o que percebem. A limitação dessa capacidade se estabeleceu por necessidade de sobrevivência dada a forma de organização da vida humana. Segundo Mazlov já havia descrito, os seres humanos ditos civilizados buscam atender as suas necessidades num crescendo que tem início na comida e passa pelo teto, emprego, segurança, lar, paz, amizade, associação, lazer, intelectualidade e cultura, para chegar na espiritualidade e na integração cósmica.
Essa não é a realidade dos animais e dos aborígenes que permanecem em sua habitat e cultura. Eles transitam entre as suas necessidades básicas e a sua integração cósmica permanentemente.
Entende-se que a repressão sensória foi necessária à evolução. Foi o nosso processo biológico-cultural que desenvolveu nosso estado de consciência diário e separou-nos dos animais e de boa parte de uma humanidade “não evoluída”, para os padrões civilizados, fornecendo-nos um auto-conceito, tornando-nos conscientes de que somos conscientes, mas separando-nos dessa unidade orgânica que os outros seres possuem em relação ao mundo natural. Índios e animais vivem em permanente interação e comunhão com os cosmos. Nós aprendemos a procurar por isso apenas em uma dessas duas condições: (a) quando já havemos alcançado todos os demais degraus da individualidade material e egoística: (b) quando jogamos fora todo acervo contido no (a) e seguimos o exemplo mais representativo desse estado, que é Francisco de Assis, dentre os milhares de outros.
A autoconsciência normal (que parece desenvolver-se em nós até os dois anos de idade, aproximadamente) é tanto um progresso biológico como uma desvantagem biológica. Sob o aspecto do desenvolvimento da raça, tem-se como aceito que a repressão foi necessária à sobrevivência. Sob o aspecto do desenvolvimento do indivíduo, tem-se como proposta, ela hoje não é mais necessária e, infelizmente, revela-se, neste século, como a causa principal de nossa corrida rumo à extinção.
Quem faz, desfaz
Nosso estado normal de consciência foi levado a excluir a percepção de nossa afinidade com a criação – nossa união com o divino. Mas se normalmente estamos num estado de repressão sensória, torna-se também importante observar que o homem é, foi, capaz não só de inibi-los, como será capaz de modificar ou alterar seus processos sensórios, como também de intensificá-los ou acentuá-los até atingir a sensibilidade análoga à dos animais e aborígenes. Os estudos realizados em experiências provocadas de êxtase, onde o indivíduo torna-se hipersensível a todos os tipos de estímulos, parecem sinalizar para isso.
O que é preciso notar é o que Einstein já ensinava: “nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou”. Isto é, para desatar um nó que fizemos, devemos estar mais aptos de quando atamos.
O êxtase, ex stasis, significa sair de um modo de pensamento e de percepção, biológica e culturalmente determinado, e entrar num modo místico. Neste modo, o homem retorna ao estado primordial de afazeres. O retorno, porém, encontra-se num nível mais elevado. Ele é tanto um círculo (revolução) como uma progressão linear (evolução): “um movimento espiralado ascendente”, como ensina John White na introdução de “O Mais Elevado Estado de Consciência” (Edição Cultrix/Pensamento, SP, 1972). O homem recupera sua condição primitiva, mas, ao invés de permanecer inconsciente ou sem nenhuma noção dela, tal como os animais, ele se torna superconsciente dessa condição. É paradoxal: “ao recuperar sua natureza animal, o homem se torna Deus” (obra citada). (Continua)
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