021. Ver-se a si mesmo
O estado supremo de consciência, a travessia das sombras para o encontro do ser consigo mesmo, também chamado de iluminação, não tem nenhuma diferença entre o conteúdo da consciência e a própria consciência. A integração ou unidade é a principal característica desse estado, tanto literalmente como no sentido figurado. No estado supremo, aquilo que conhecemos é a força vital, a condição universal que emerge enquanto percepção inteligente, que tem seu próprio nome. Ela eqüivale ao olho que se vê a si mesmo, ao pensamento que se volta sobre si mesmo e pensa acerca do pensar: o encontro do ser consigo mesmo. A iluminação é a travessia, é o ato reflexivo no qual a mente se conhece a si mesma, incluindo a própria experiência do conhecimento, ou o retorno à divindade (conteúdo da consciência), que eqüivale à percepção da Percepção Cósmica (da própria consciência).
Quando considerada de modo abstrato, a consciência, como a luz, tem um aspecto tanto físico como espiritual. A unificação, porém, é a realidade concreta por trás, abaixo, acima e dentro dela – muito sutil e, no entanto, real, como demonstra a evidência recente da percepção das plantas.
A consciência, enquanto bioquímica, pode ser analisada em função dos neurônios, descargas eletroquímicas através de sinapses e dos feixes moleculares que permeiam as membranas. Estes, contudo, também podem ser analisados até alcançar o nível atômico, em seguida, o nível subatômico. Onde isso acaba?
A consciência será algo bioquímico? Algo eletroquímico? E a inteligência onde entra? É muito para a parte querer conhecer do todo. Seria a consciência o todo na parte?
O que temos aqui?
Cleve Backsster, o redescobridor do antigo conhecimento indiano acerca da percepção das plantas – que os índios sempre souberam existir – descobriu que a percepção primária, que é a capacidade da vida celular animal e vegetal de perceber os pensamentos e sentimentos animais e humanos, pode ser demonstrada com minerais, metais e até com água triplamente destilada. Há uma capacidade de percepção em todas as coisas. O cosmo inteiro é sensitivo e (nos dois sentidos) sensível. Na análise final, a consciência pode ser vista como a interconexão de toda a criação ou mais precisamente, o contexto fundamental desse encadeamento e que o torna possível.
Zenão o Grego, e seu grupo filosófico, em sua época já questionava: “porque não admitir que o mundo é um ser vivo racional, já que ele produz entidades animadas e inteligentes?” As ciências mesmo desconexas têm chegado a evidências de alguma forma de consciência que acompanha toda a vida orgânica, até mesmo o mais primitivo lodo protoplasmástico. E há um número cada vez maior de evidências que indicam sua presença além do limiar da vida.
Desde a antigüidade, o pensamento hindu afirmava que atman, o centro mais profundo do ser humano, é uno com Brahman, o centro mais profundo da criação. A ciência, hoje em dia, confirma isso: eu sou o universo: eu sou a Mente Universal.
Tentemos conceber a criação como se houvesse cinco níveis, de baixo para cima: o atômico, o biológico, o psicológico, o social e o cósmico. Se procurarmos uma resposta para aquele koan básico “quem sou eu?”, tudo que for examinado se dissolverá nas outras categorias dessa metáfora. Comece-se pelo meio: o psicólogo em breve estará no social através da psicologia de grupo. No nível social, a psicologia de grupo alcança a sociologia, que por sua vez, conduz a um estudo de religião e filosofia. Dirigindo-se para a base, passa-se da psicologia para um estudo de biologia e de química. À medida que procuramos conhecer-nos melhor, passamos ao estudo da composição celular, às redes neurais e à química da emoção, da percepção, do aprendizado e da memória. Na busca porém, de uma compreensão da mentalidade, descobrimos que, em breve, descemos até o nível atômico, onde se chega ao DNA, à transmissão da radiação atômica e à teoria quântica. Estas, por sua vez, nos levam de volta ao topo. Pois a física subatômica conduz ao estudo da matéria e da antimatéria numa escala cósmica. Isso nos leva à antiga e misteriosa citação bíblica: “Assim na terra como no céu”.
E o homem?
O homem estuda, investiga, experimenta, desconfia, intriga-se e segue. Dá uns passos gigantes num sentido, depois volta arrependido. Mas já sabe das espirais interseccionais de Yeats. Já sabe do cinturão de radiação de Van Allen. No fundo, quem sabe ele saiba ser ele próprio um modelo em miniatura dessa rosca que circunda o planeta: um vórtice local num mar de energia, um emblema visível da teoria do estado imutável da criação. Não se trata tanto do caso de “eu penso” enquanto “estou pensando” ou “eu sou constantemente criado”. A consciência, enquanto fundamento de toda a atividade física e do funcionamento mental, torna-se uma espécie de radiação interna que não é, de modo algum, interna mas, antes uma área focalizada ou concentrada de radiação cósmica externa. A aura trabalhada pelos místicos, e a auréola, estilizada na pintura dos santos, é então explicável como energia eletromagnética auto-induzida, intensificada e levada para dentro da área de luz visível do espectro mediante a “pureza espiritual” desses seres – isto é, mediante a ausência neles de vibrações interferentes oriundas de processos de pensamentos confusos.
Dos quarks aos quasares, dos pulsos aos pulsares – e tudo por causa de uma pergunta “quem sou eu?” (Quarks são quaisquer das três partículas hipotéticas postuladas na formação dos blocos de construção dos bárions e mésons; quasares são as imensas formações luminosas do cosmos).
A análise final revela-se uma síntese original, e a consciência torna-se a interconexão de toda a criação numa imensa cadeia do ser. Neste caso, cadeia como sinônimo de rede, ligando o homem ao todo, como parte do todo, tendo o todo em si. Logo, se o ser humano estiver preso a outra cadeia, sinônimo de falta de liberdade, que o impeça de ser e exercitar-se como fio e nó da rede, libertemo-lo. O conteúdo e o processo, a ciência e a religião convergem no estudo da auto-identidade, revelando o verdadeiro significado de “psicodélico” = psyche delos = mente manifestada, anunciando as verdadeiras dimensões do auto-Espírito.
Quem sou? Eu sou o universo; eu sou a Mente Universal. E devo transitar por minhas dimensões como transitam todos os outros seres vivos.
Essa é a travessia. Mas, o enfoque prossegue.
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