segunda-feira, 30 de julho de 2012

A travessia (II)

 

020. A Iluminação do Cérebro


Uma das dificuldades do homem, dito civilizado, para se colocar nessa linha de comunhão com o mundo ao qual pertence e do qual se afastou por convenções das quais nem ele tem conhecimento ao certo de como vigoram e para que, é a modelação das redes neurais de seu cérebro.
Considerando que havia, ou há, redes desconexas ou “compartimentos” do sistema nervoso do cérebro, na iluminação há uma ruptura que resulta numa integração das trilhas nervosas pelas quais pensamos e sentimos. Nossos múltiplos “cérebros” tornam-se um único cérebro. O neocórtex (a parte do “pensamento-intelecto”), o sistema límbico e o tálamo (a parte da “sensação-emoção”) e o bulbo raquiano (a parte da “intuição-insconciente”) atingem um modo de comunicação intercelular anteriormente inibido, mas sempre possível. O limiar é transposto – explicável, provavelmente, em função não só da mudança eletroquímica celular mas também do desenvolvimento de novas terminações nervosas. Embora se realize mediante funções neurofisiológicas, o resultado é um novo estado de consciência. Este, por sua vez, cria um novo modo de percepção e sensação que conduz à descoberta de formas lógicas não-racionais (porém não irracionais), que são de vários níveis/integradas/simultâneas, não lineares/sucessivas/do tipo ou...ou.

Instrumentos


Como pode uma pessoa alcançar o estado supremo de consciência? Há muitas portas para o mesmo quarto. Algumas têm sido descobertas; outras têm sido desenvolvidas. As situações clássicas impulsoras têm sido a dança, o jejum e a dieta, a autotortura, o choque elétrico, o isolamento sensório, a sobrecarga sensória, os episódios psicóticos, o trauma e o nascimento pela provação, a fadiga extrema, as relações sexuais e a simples contemplação da natureza. As abordagens sistemáticas, que muitas vezes requerem uma adesão e uma disciplina rigorosa, inclui a oração, o ioga, o zen, o sufismo, o tantra, a meditação transcendental, os alucinógenos, a hipnose e os métodos secretos, tais como os de Gurdjieff e Madame Blavatsky. Recentemente, os espetáculos com efeito de luzes, a biorregeneração e a integração estrutural (“Rolfing”) também se têm mostrado eficiente. Uma introspecção decidida – que Gurdjieff chamou de o caminho do homem inteligente - tem conduzido algumas pessoas a um estado de salvação.
Nenhum desses métodos, porém, constituem um caminho seguro para alcançar a libertação. Evelyn Underhill, em seu livro Mysticism, distingue três estágios no caminho para o êxtase: o despertar do eu, a purificação do eu e a iluminação do eu. Pode-se utilizar outros termos como “estágio meditativo”, “estágio purgativo” , mas o mais importante é: por mais arduamente que se busque o “estágio iluminativo”, ele nunca poderá ser alcançado – mas apenas descoberto. Há um conceito cristão, um tanto desacreditado e posto de lado, que se aplica muito neste caso: a “graça” ou “o estado de graça”.
Também é importante insistir que iluminação não é alucinação ou ilusão. Mesmo se fosse, seria valioso experimentá-la tendo-se apenas em vista seu efeito benéfico sobre as vidas humanas. Contudo, como tentaremos demonstrar, o estado supremo de consciência é muito mais do que pura subjetividade. Ele é subjetivo, mas de uma maneira paradoxal: a iluminação revela que aquilo que é mais profundamente pessoal é também mais universal (obra citada). No estado místico, a realidade e a idealidade tornam-se una. (Continua)

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