segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Conhecimento profundo


A gnose sufocada por Roma

Na sequência daquilo que conhecemos por primórdios da Filosofia inaugurada pelos pensadores gregos (e sufocada por opositores representados por adoradores dos deuses mitológicos) algumas coisas precisam urgentemente serem colocadas nos seus devidos lugares.

A nascente Filosofia não era uma religião, questionava o padrão das crenças populares e certamente contrariava o interesse dos governantes.

Vale lembrar que a exemplo do que muito ainda acontece nos tempos atuais, os deuses ditavam as regras para o povo e o faziam pela voz dos governantes que intitulavam “a voz dos deuses”. Escondidos atrás dos mitos, os poderosos modelavam o povo, segregavam as liberdades, promulgavam a obediência tácita e condenavam os “hereges”, uma palavra que prosseguiu em uso por quase dois mil anos. Hoje, o “herege” é conhecido por opositor ou subversivo. Heresia era desrespeitar as “ordens divinas” proclamadas pela boca dos reis, imperadores, faraós.

Todos os seguidores de Sócrates pregavam a liberdade intelectual e condenavam a prisão mental representada por uma crença na existência dos deuses mitológicos. Suas cátedras eram bem recebidas nos meios intelectuais e ganhavam adeptos mesmo no posterior regime helênico liderado por Alexandre Magno – o Grande e seus sucessores.

A cidade de Alexandria, no Egito, fundada em honra a este mesmo Alexandre, tornara-se a sede da maior e mais avançada biblioteca do planeta à época. E foi a cidade sede do que nós conhecemos por Gnose – uma alternativa para a Filosofia por permitir-se incluir questões religiosas nos conteúdos estudados. Enquanto a Filosofia se proclamava agnóstica – sem admitir e sem repudiar a existência de Deus, a Gnose se proclamava livre para trazer para seu âmbito tudo quanto pudesse e ainda possa representar conhecimento – conhecimento profundo.

Jesus Cristo por seus discursos ecumênicos era um gnóstico. Transitava por entre os cristais sagrados das fundamentações religiosas de sua época e chegava à outra margem do pensar livre ao oferecer visões libertárias para o proceder ético e amoroso do Ser Humano. Os primeiros sacerdotes cristãos eram gnósticos. A civilização essênia, cujos gurus e discípulos deixavam crescer os cabelos (a exemplo do que também aconteceu com Jesus), apesar do rigor de alguns procedimentos ritualísticos, era uma civilização amante da gnose.

Em que conflitam as tradições, os dogmas e os rituais religiosos frente à gnose? O gesso. Ao desamarrar o intelecto humano para que novos saberes sejam incorporados, os gnósticos quebram o gesso daquilo que não pode ser mudado como defendem os fundamentalistas de qualquer religião ou filosofia.

Os tradicionalistas, dogmáticos e ritualistas abrem os livros contendo saberes com muitos séculos de idade e proclamam que ali está tudo o que o Ser Humano precisa saber, que ali está tudo o que os deuses e Deus queriam informar ao povo. Em oposição a esta retrógrada ideologia, os gnósticos continuam buscando o que mais há para ser descoberto e incorporado ao conhecimento humano, aprofundando o saber, capacitando as mentes a serem melhor aproveitadas na sua aproximação com o conhecimento divino.  

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