A
polêmica continuará
Toda
análise que se alicerce em teses insustentáveis terá de ser colocada sob
suspeita por falta de lógica. As pessoas não estão mais dispostas a ouvir
estórias retiradas de lendas ou mitos.
E
poucas são as fontes de onde se possa buscar se Jesus Cristo de fato existiu,
se foi um homem como todos os demais, se nasceu de Maria e José, como todos os
demais judeus, se de fato morreu na cruz, se de fato retornou ao mesmo corpo e
se de fato subiu aos céus na posse deste mesmo corpo.
Sim,
porque sua condenação teve como primeiro argumento a blasfêmia: seus acusadores
pediram a Pilatos que o condenasse por afirmar ser Filho de Deus – quando essa
hipótese nem passava pela cabeça dos judeus opositores, visto que as crianças
nascem filhas de homens e mulheres, como é a lógica para todos os seres
humanos. Ou Jesus não era humano!?
Ainda
mais porque diferentemente dos demais condenados à cruz e especialmente
diferentemente dos dois outros que também foram crucificados no mesmo episódio,
Jesus não teve suas pernas quebradas, como era praxe, e também teve seu corpo
recolhido da cruz antes dos demais, a pedido de seu tio, o senador José de
Arimateia e também a mando deste mesmo senhor recebeu sepultura honrosa
diferentemente dos demais condenados cujos corpos eram deixados ao léu no monte
Gólgota como carniça para abutres e cães.
Outro
porém para o fato de que no domingo posterior à crucificação de sexta-feira à
tarde, o corpo de Jesus não estava mais no sepulcro e, segundo os evangelhos,
andando pelas ruas, se encontrando com seus discípulos e familiares,
conversando com eles e se alimentando de peixe e mel.
E
ainda é preciso colocar mais um porém para as buscas que se destinem esclarecer
se de fato ele subiu aos céus na posse do próprio corpo, como se deu isso, para
onde teria ido e onde se encontra hoje, pois aquela que se diz a sua igreja
prega isso para milhões de fiéis.
Muito
superficialmente algumas autoridades religiosas concordam em falar sobre alguns
desses mitos, até certo ponto considerados absurdos perante a razão humana.
Uma
dessas autoridades foi o cardeal Paulo Evaristo Arns, recentemente falecido em
São Paulo. O pesquisador perguntou-lhe:
1
- Quem foi Jesus Cristo?
2
- Por que houve cisma entre judeus e cristãos?
3
- Por que o cristianismo virou uma religião de massas?
4
- Por que Jesus foi crucificado?
5
- Como explicar as contradições entre os quatro evangelhos?
D.
Paulo Evaristo Arns, aos 74 anos, como cardeal arcebispo de São Paulo, disse,
pela ordem:
Resposta
à pergunta 1 - Jesus foi um judeu de sua época, instruído na Torá e observante
de tudo o que era fundamental para o povo de Israel. Como outros, ele também
possuía uma consciência crítica do seu tempo e não deixou de mostrar o que lhe
parecia contraditório na vivência religiosa e social da época. Ele foi um sinal
de contradição. Já na primeira pregação pública, na Sinagoga de Nazaré, forma-se
o grupo de opositores que tentam matá-lo, mas forma-se, também, o grupo de
discípulos que levarão adiante sua obra.
Resposta
à pergunta 2 - O ponto crucial foi a aceitação crescente, por parte dos
cristãos, da divindade do Messias Jesus de Nazaré. As outras divergências nunca
foram um problema muito sério. Os judeus sempre conviveram com a adversidade e
a diversidade. Mas a alta cristologia que foi se desenvolvendo entre os
chamados nazarenos e que terminou por identificar Jesus de Nazaré como o próprio
Deus-Pai-Javé era inaceitável.
Resposta
à pergunta 3 - Abrindo para o mundo o tesouro da revelação contida na tradição
judaica, o cristianismo só podia conquistar corações. Como não se voltar para
“um Deus de compaixão e piedade, lento para cólera e cheio de amor e
fidelidade, que guarda seu amor a milhares e tolera a falta, a transgressão e o
pecado?” (Êxodo, 34, 6-7). A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a
verdade vieram por Jesus.
Resposta
à pergunta 4 - João explicita a causa da condenação no diálogo de Pilatos com
os judeus, quando esses afirmam: “Nós temos uma lei e que, conforme essa lei,
ele deve morrer porque se fez filho de Deus” (João, 19,7). De fato, no momento da
condenação, a concepção de Jesus Deus ainda não é clara para os seus discípulos.
Para os judeus é apenas uma blasfêmia.
Resposta
à pergunta 5 - Não há contradições no sentido de ensinamentos que se opõem e se
negam mutuamente, como se um texto dissesse que Deus existe e outro dissesse
que não. Há leituras diversificadas da realidade, pela própria natureza do
escrito (gênero literário). Há pormenores redacionais que não coincidem, mas
que se explicam conhecendo-se a história das fontes utilizadas, a história da
redação e o objetivo do autor diante de seus destinatários.
O
rabino Henry Sobel, então com 51 anos, como presidente do Rabinato da
Congregação Israelita Paulista, também concordou em falar para também responder
às mesmas cinco perguntas.
Eis
as suas respostas:
1
- Jesus foi um judeu, um grande mestre que pregou ideias universais da fé
judaica. Nós não o aceitamos como messias porque o Reino de Deus que aguardamos
com tanta ansiedade ainda não se manifestou. Não rejeitamos os conceitos de
Jesus sobre Deus. A questão crítica é a doutrina cristã de que Deus tornou-se
homem e permitiu que seu filho único sacrificasse a vida para expiar os pecados
da humanidade.
2
- O judaísmo não reconhece um “filho de Deus” que se destaca e se eleva acima
dos outros seres humanos. Todos somos “filhos de Deus”. Na teoria judaica, Deus
não pode materializar-se em nenhuma forma. A crença num messias divino que é
encarnação de Deus contraria a convicção judaica da absoluta soberania e
unicidade de Deus.
3
- O judaísmo é uma religião que se caracteriza por um grande número de leis
rituais e se baseia num sistema de prescrições e proibições. O cristianismo se
apresentava como uma religião “antilegalista”. Com isso, não só afirmou sua
independência em relação ao judaísmo como também conquistou adeptos em todo o
império romano, tornando-se uma religião de massas.
4
- É importante ressaltar o caráter opressivo do governo romano na Judéia.
Pôncio Pilatos foi especialmente cruel no exercício de suas funções. Antes de
Jesus, centenas de outros judeus já haviam sido crucificados. Jesus foi
crucificado pelos soldados romanos como criminoso político, “Rei dos Judeus”. A
acusação de deicídio, que pesou sobre o povo judeu e foi uma das principais
causas do antissemitismo é totalmente infundada. Acusar os judeus da morte de
Jesus foi a forma mais convincente de fazer a verdadeira acusação, a de que nem
todos os judeus se tornaram cristãos. Há trinta anos, o Concílio Vaticano II
repudiou a acusação de deicídio contra os judeus.
5
- Existem quatro evangelhos, não um. É preciso lembrar que não foram escritos
como relatos históricos, no sentido moderno, isto é, como uma transcrição
factual de eventos, e sim como narrativas de caráter religioso. Os eventos
foram vistos sob quatro óticas teológicas diferentes.
E
também foi chamado a opinar um pastor luterano: Milton Schwantes, 49 anos,
pastor de Guarulhos e coordenador do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em
Ciências da Religião.
Eis
o que ele disse sobre as mesmas cinco perguntas:
1
- Jesus foi um sábio em meio à vida da gente. Na Galileia, era pouco percebido
entre os grandes. Suas críticas aos romanos imperialistas e às elites locais
por certo eram severas, duras. Mas não promoviam a luta armada. O amor radical
como caminho da justiça decidida era sua vida. Jesus foi revolucionário, sem
armas.
2
- Ao invés de fazer-se comunitária, a experiência pode fazer-se violenta,
excludente, exclusiva. Eis a estufa do fundamentalismo. Somos hóspedes na casa
de Israel. Não donos. Os que estão “em Cristo”, que são cristãos, assumem a
fragilidade de não serem autossuficientes. Sem Israel e suas sinagogas viramos
galho sem tronco. Mas nem sempre suportamos esta fragilidade. Antes fizemo-nos
donos. Quisemos nos adonar de Israel. Expropriamos os seguidores de Tupã,
escravizamos os de Olodum. Ao deixarmos de ser hóspedes de Israel fizemo-nos
também exterminadores de muitos povos.
3
- Pelo que me consta, os cristãos não passavam de uns 10% da população, quando
Constantino incorporou essa religião ao império romano. Nesse sentido, o
cristianismo se tornou religião de massas através do poder de Estado. Aliás, o
que aí teve início perpassou a história da Europa e das Américas. O poder foi o
maior pregador. Ainda estamos nestes tempos. Ora, as igrejas se sentem muitos
sós sem os palácios. Ora, o senhorio do palácio se torna devoto, porque sem religião
não se ganha eleição.
4
- Os colonizadores romanos mandavam matar na cruz. E quem estava com eles,
fazia o jogo do império. À cruz era levado quem ameaçasse a ordem dos senhores
em Roma e em Jerusalém. Por isso Jesus foi sentenciado. Aliás, continua sendo
sentenciado, hoje, dia a dia. Basta querer ver.
5
- Tradições bíblicas investem na diferença. Jardim bonito é o que floresce em
muitas cores. A Bíblia leva mais o jeito de jardim do que de verdade em si,
acabada, na linha. Até seria de estranhar se não houvesse “contradições”. Os
quatro evangelhos não fogem à regra da diversidade, cada qual dando o melhor de
si para embelezar sua flor. O mundo é maior e mais lindo que o que cabe na
mente ocidental, que pensa em linha, em fila, alinhada.
Para
finalizar quero sugerir ao leitor: tome a pergunta 1 e visite as três respostas
dadas a ela pelos três personagens entrevistados. E faça o mesmo com as demais
perguntas. É uma modalidade de conhecer as suas respostas como se eles
estivessem sendo entrevistados e respondendo uma a uma, em conjunto, a cada uma
das cinco perguntas. Fazendo isso crescemos em compreensão e temos as mais
relativas possibilidades de irmos fazendo um resumo a respeito das divergências
e da polêmica.
Até
mais.
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