Entre o
espiritismo e a gnose
A figura mais importante da Gnose
nestes últimos séculos foi Carl Gustav Jung. Logo depois que ele percebeu o
rigor acadêmico e materialista de seu contemporâneo e mestre, Sigmund Freud, e
resolveu afastar-se dele, Jung perambulou por doutrinas e mais doutrinas, inclusive
a Espírita, chegou a frequentar algumas reuniões em que ocorriam incorporações
de mesa. Até parece que gostou e chegou mesmo a publicar um pequeno livrinho no
qual dá claras demonstrações de que se trata de uma psicografia. Refiro-me ao “Os
Sete Sermões aos Mortos”, de cujo conteúdo o espírito Basilides, de Alexandria,
responde pela maior parte.
E foi esta incursão pelo conhecimento
desenterrado em Alexandria, e não só, que encorajou Jung a trabalhar mais
profundamente com a Gnose, responsável por momentos brilhantes de nossa
cultura, infelizmente podados.
São vários os biógrafos de Jung a
reconhecer que ele se transformou num dos grandes personagens do gnosticismo
moderno.
Stephan A. Hoeller, cujos livros se
repetem mergulhando a Divina Gnose, escreve em “A Gnose de Jung”: “Para
podermos entender melhor a obra de Jung necessitamos visualizar o cenário
existente na Europa no século passado. Emergindo da obscura alienação da
consciência que caracterizou o século XIX, a redescoberta do mistério do
inconsciente, dentro da mente humana, tornou-se muito semelhante à influência
bíblica que fez surgir todo um mundo novo do espírito diante dos olhos de
gerações passadas. O filósofo alemão Martin Heidegger expressou uma grande
verdade ao considerar o século XIX como o mais negro de todos os da era
moderna. No entanto, foi precisamente nesse período de maior obscurecimento da
luz do espírito que nasceram os dois gigantes pioneiros do inconsciente: Sigmund
Freud e Carl Gustav Jung, em 1856 e em 1875, respectivamente.
“Freud foi um grande descobridor,
destinado a desmascarar muitas coisas. Tanto os psicólogos como o público ainda
hoje custam a perceber a dívida de gratidão que têm para com ele. Como era um
homem da antiga e estritamente materialista escola de ciência, que só trocou o
laboratório de biologia pela arte da cura, por exigências práticas, Freud só poderia
utilizar os padrões e pensamentos do seu tempo. Por trágica e irônica
idiossincrasia do destino, o homem, cujas descobertas abalaram os alicerces do
racionalismo científico, permaneceu, ele próprio, preso ao dogma reducionista e
racionalista, que preservou e defendeu com convicção desesperada. Freud, como
Moisés, não pôde entrar na terra prometida, à qual conduziu outros, e a tarefa
da conquista final recaiu então sobre um homem mais jovem, — um novo Josué da
mente, cujo nome era Carl Gustav Jung.
“Quem era Jung e como ele realizou a
suprema missão do pioneirismo psíquico? Quais eram as fontes da sua intuição
profética sobre os mais secretos recessos da alma humana? De onde provinha a
sua sabedoria? Por toda a longa vida de Jung, as pessoas se intrigaram com as
implicações curiosamente mágicas e esotéricas do seu trabalho. Tratava-se de um
fenômeno até então inédito no mundo da intelectualidade, desde o Iluminismo.
Símbolos e imagens de venerável e obscuro poder foram ressuscitados da poeira
de suas tumbas milenares. Hereges e alquimistas, místicos e magos, sábios
taoístas e lamas tibetanos emprestaram os tesouros de suas buscas arcanas à
bruxaria do moderno Hermes suíço. Findas estavam as preocupações personalísticas
e mundanas da psicanálise anterior, com seus traumas de infância e fantasias imaturas,
e os deuses e heróis do passado não eram mais considerados máscaras glorificadas
de terrores e de luxúrias infantis. Como Vênus, que emergiu da espuma do mar,
ou Atena, que nasceu da fronte de Zeus, os arquétipos surgiram da prima matéria
do inconsciente coletivo: Os deuses, mais uma vez, caminhavam com os homens.
Acima dessas águas primordiais de criatividade da psique movia-se o espírito de
um homem, o gênio de Jung. Bem poderia o intelectual surpreender-se e o sábio
ficar atônito, pois uma nova era da mente havia chegado”.
O conhecimento sagrado ocidental
ancorou na Grécia Antiga e na Roma Antiga. Alexandre – o Grande – e seus
sucessores implodiram a usina intelectual inaugurada por Pitágoras e continuada
pelos posteriores, Sócrates & Cia. Roma se apoderou da Doutrina Crística e
a modificou para servir aos interesses do poder imperial.
O que havia de comum entre Sócrates e
Jesus? Evidentemente não se trata de suas execuções por ordem dos poderosos de
então. A sabedoria cristã, tenha ela inspiração divina direta ou não, o que
importa é que se trata de Divina Gnose. O pouco que se mantém vivo da sabedoria
cristã se deve ao fato de que ela não traz conceitos fragmentados de
conhecimento, exatamente como é a proposta da Gnose.
E foi no terreno da Gnose que Jung
criou as mais extraordinárias de suas obras.
Voltaremos
a este tema.
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