sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Jung gnóstico


Entre o espiritismo e a gnose

A figura mais importante da Gnose nestes últimos séculos foi Carl Gustav Jung. Logo depois que ele percebeu o rigor acadêmico e materialista de seu contemporâneo e mestre, Sigmund Freud, e resolveu afastar-se dele, Jung perambulou por doutrinas e mais doutrinas, inclusive a Espírita, chegou a frequentar algumas reuniões em que ocorriam incorporações de mesa. Até parece que gostou e chegou mesmo a publicar um pequeno livrinho no qual dá claras demonstrações de que se trata de uma psicografia. Refiro-me ao “Os Sete Sermões aos Mortos”, de cujo conteúdo o espírito Basilides, de Alexandria, responde pela maior parte.

E foi esta incursão pelo conhecimento desenterrado em Alexandria, e não só, que encorajou Jung a trabalhar mais profundamente com a Gnose, responsável por momentos brilhantes de nossa cultura, infelizmente podados.

São vários os biógrafos de Jung a reconhecer que ele se transformou num dos grandes personagens do gnosticismo moderno.

Stephan A. Hoeller, cujos livros se repetem mergulhando a Divina Gnose, escreve em “A Gnose de Jung”: “Para podermos entender melhor a obra de Jung necessitamos visualizar o cenário existente na Europa no século passado. Emergindo da obscura alienação da consciência que caracterizou o século XIX, a redescoberta do mistério do inconsciente, dentro da mente humana, tornou-se muito semelhante à influência bíblica que fez surgir todo um mundo novo do espírito diante dos olhos de gerações passadas. O filósofo alemão Martin Heidegger expressou uma grande verdade ao considerar o século XIX como o mais negro de todos os da era moderna. No entanto, foi precisamente nesse período de maior obscurecimento da luz do espírito que nasceram os dois gigantes pioneiros do inconsciente: Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, em 1856 e em 1875, respectivamente.

“Freud foi um grande descobridor, destinado a desmascarar muitas coisas. Tanto os psicólogos como o público ainda hoje custam a perceber a dívida de gratidão que têm para com ele. Como era um homem da antiga e estritamente materialista escola de ciência, que só trocou o laboratório de biologia pela arte da cura, por exigências práticas, Freud só poderia utilizar os padrões e pensamentos do seu tempo. Por trágica e irônica idiossincrasia do destino, o homem, cujas descobertas abalaram os alicerces do racionalismo científico, permaneceu, ele próprio, preso ao dogma reducionista e racionalista, que preservou e defendeu com convicção desesperada. Freud, como Moisés, não pôde entrar na terra prometida, à qual conduziu outros, e a tarefa da conquista final recaiu então sobre um homem mais jovem, — um novo Josué da mente, cujo nome era Carl Gustav Jung.

“Quem era Jung e como ele realizou a suprema missão do pioneirismo psíquico? Quais eram as fontes da sua intuição profética sobre os mais secretos recessos da alma humana? De onde provinha a sua sabedoria? Por toda a longa vida de Jung, as pessoas se intrigaram com as implicações curiosamente mágicas e esotéricas do seu trabalho. Tratava-se de um fenômeno até então inédito no mundo da intelectualidade, desde o Iluminismo. Símbolos e imagens de venerável e obscuro poder foram ressuscitados da poeira de suas tumbas milenares. Hereges e alquimistas, místicos e magos, sábios taoístas e lamas tibetanos emprestaram os tesouros de suas buscas arcanas à bruxaria do moderno Hermes suíço. Findas estavam as preocupações personalísticas e mundanas da psicanálise anterior, com seus traumas de infância e fantasias imaturas, e os deuses e heróis do passado não eram mais considerados máscaras glorificadas de terrores e de luxúrias infantis. Como Vênus, que emergiu da espuma do mar, ou Atena, que nasceu da fronte de Zeus, os arquétipos surgiram da prima matéria do inconsciente coletivo: Os deuses, mais uma vez, caminhavam com os homens. Acima dessas águas primordiais de criatividade da psique movia-se o espírito de um homem, o gênio de Jung. Bem poderia o intelectual surpreender-se e o sábio ficar atônito, pois uma nova era da mente havia chegado”.

O conhecimento sagrado ocidental ancorou na Grécia Antiga e na Roma Antiga. Alexandre – o Grande – e seus sucessores implodiram a usina intelectual inaugurada por Pitágoras e continuada pelos posteriores, Sócrates & Cia. Roma se apoderou da Doutrina Crística e a modificou para servir aos interesses do poder imperial.

O que havia de comum entre Sócrates e Jesus? Evidentemente não se trata de suas execuções por ordem dos poderosos de então. A sabedoria cristã, tenha ela inspiração divina direta ou não, o que importa é que se trata de Divina Gnose. O pouco que se mantém vivo da sabedoria cristã se deve ao fato de que ela não traz conceitos fragmentados de conhecimento, exatamente como é a proposta da Gnose.

E foi no terreno da Gnose que Jung criou as mais extraordinárias de suas obras.
Voltaremos a este tema.

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