Desejo, Verdade e Modo
Como já é possível perceber, e esta é a proposta desta série, são esperados embates entre alguns dos mais qualificados autores que servem de base bibliográfica a este trabalho, mas o embate é construtivo, com ou sem divergência, com ou sem controvérsia, e se presta a uma espantosa complementariedade desde que afastado o fundamentalismo.
Poucos foram os estudiosos que ousaram penetrar nos labirintos que servem de morada, no homem, aos seus desejos, à sua imaginação, às suas paixões. Decididamente, não é o cérebro a morada dos desejos, da imaginação, das paixões. Já se disse ser o coração, mas este importante órgão não tem tempo para mais nada do que bombear milhares de litros de sangue diuturnamente para que os combustíveis das células cheguem aos seus destinos e a vida biológica esteja atendida em seus pormenores. Desejo e imaginação nada têm de biológicos, ainda que se valham da química dos hormônios. Nada têm de biológico como origem. E as paixões ainda que cantadas em prosa e verso como uma exteriorização que parte do coração e ainda que quando nos referimos a ela apontemos para o peito, onde se presume more o amor, nesse caso é, também, um equívoco. A paixão não é um ato de amor, é um impulso instintivo com origem numa parte movida pela química e noutra parte pelo eletromagnetismo da mente. Então é preciso buscá-la nos instintos, no “conatus”, como assinala e como define Espinosa: a paixão é a união da alma e do corpo, algo assim como um desejo muito forte que inebria a razão, afasta a mente e gera um modo de agir de uma motricidade indomável, “um poder para expandir e buscar realizar-se plenamente”.
O desejo, pois, pode perfeitamente ser a causa do bem agir e a causa do mal agir, como centro motor da boa qualidade ou da má qualidade do homem. A Essência humana pode ser conhecida simplesmente através do desejo, cujo conceito foi por Espinosa declarado como “a tendência interna de fazer algo”, onde cabem os vícios, antes das virtudes, e através do que se revela, no homem, o encurtamento das distâncias entre o ato de desejar e o objeto desejado. Nisso ocorre a união entre desejo e conquista, que se reproduz no plano dos modos, entre dois extremos, ou como atividade divina imanente ou no outro extremo como anjo caído. Veja: afastada está a hipótese e consolidada está a síntese de que ao domar desejo, imaginação e paixões, o homem terá domado sua alma e terá se aproximado do projeto do Inventor Supremo.
Para Espinosa, aqui começa nascer um novo conceito de livre arbítrio e de liberdade, pois o ato de desejar precisa estar sujeito às Leis Universais. Para ser feliz, o homem não pode, simplesmente, desejar o que bem quiser. Ele será destruído por seus desejos, dependendo do que sejam seus desejos. Há livre arbítrio nisso, mas a escolha pode ser cruel. Parece haver, sim, muita liberdade e um enorme campo para o livre arbítrio quanto o modo de agir, oriundo dos desejos humanos, esteja no pleno alinhamento com o Projeto Supremo. E este projeto, que será enfocado adiante, se realiza inteiramente na seara do bem.
Vale destacar para corroborar: Espinosa conclui que ser escravo das paixões é oscilar permanentemente entre os opostos até o aniquilamento do “conatus”, que ele próprio define como sede dos instintos. E creio que vale acrescentar: é quando, por iluminação espiritual, o homem opta por abandonar as dúvidas que o atraem ao bem ou ao mal, e é quando ele decide matar um dos lobos que carrega consigo e, tendo escolhido, teoricamente, segue apenas os passos do lobo que sobreviver.
Jung também aborda algo próximo disso quando nos apresenta Abraxas, um ser monstruoso que numa tentativa de busca pela beleza oscila entre o bom e o mau até conseguir a fusão de ambos. Usa a força do mal para impulsionar o bem e usa a beleza do bem para aprimorar o impulso que nasce com o mal. O resultado é um ser transformado. Qual é o segredo disso? Veremos na próxima postagem.
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