quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Trava tudo, "tá tudo dominado"


Isso parece linguagem de presídio

E é. É e não é, mas é preciso explicar.

Eu já publiquei aqui e repito agora por necessidade de formar uma linha de pensamento. Se você, leitor, leitora, olhar para a caminhada humana sobre a história e puder comparar isso com o próprio crescimento nosso como seres humanos, vai dar nisso: lá atrás, como crianças, nosso mundo era a mãe, de onde nos chegava a comida, a higiene, o calor, o carinho – éramos o indígena que percebia Deus/Deusa em tudo; na segunda infância, estávamos abertos aos contos, aos mitos, às lendas, às estórias e histórias – éramos doutrinados e “sempre caíamos no sono” ao ouvir uma fascinante estória envolvendo algum mito; como adolescentes começamos a contestar e a rearranjar posições para nosso conforto intelectual – éramos o nascimento de milhares de seitas e religiões antagônicas cada uma com sua tese; jovens, chamados a fazer escolhas e a assumir responsabilidades – éramos buscadores de luzes, investigadores da verdade, nossa e do mundo, com a eclosão de linhas de pesquisa comprometidas com a verdade, com a lógica; adultos, já não podemos mais nos deixar levar por conversa fiada – somos gnósticos a caminho de nos tornar anciãos e plenos.

Aqui entra a linguagem de presídio. Ali na altura da juventude quando as coisas fervilharam, poderosas forças políticas, econômicas e religiosas, as mesmas do “pão e circo para o povo”, esconderam do povo a verdade e passaram a pregar através de cânones e dogmas.

É isso que temos hoje. Quatrocentas religiões garantindo que está tudo dominado e, de fato, está.

Hoje você lê constrangido que o diretor da Ordem de Malta, uma poderosa organização que acha que manda no Papa, foi demitido porque defendeu a hipótese de distribuir camisinhas de vênus para um grupo de risco para o vírus HIV. A Igreja também é contra, mas o Papa aceita a ideia. Quando a ideia sai do plano das ideias, o “tá tudo dominado” é o grito que vem lá do fundo das catacumbas, com rosnar de cães treinados para o ataque, exalando cheiro de mofo e de enxofre.

O caso das camisinhas é uma pontinha do iceberg. Tem toneladas de gelo abaixo da superfície.

Como o pão e o circo ficaram um pouco em desuso, o Coliseu faliu, as mesmas poderosas forças que mataram Jesus e depois o trouxeram para deus de seus cultos, criaram mecanismos continuados desde o século IV quando Constantino quis salvar o seu império através de uma religião católica (universal) e apostólica, isto é, com rigidez apostolar para que ela pudesse aplacar os ânimos libertários do povão.

O episódio de Paris, de 1789, foi nada, apesar de ser todo o começo da libertação com igualdade e fraternidade. Mas, estamos muito longe dos três sonhos parisienses.

Conhecer isso é uma obrigação daqueles que rompem com esse passado terrível, assassino, dominador, mentiroso, traiçoeiro. E só a gnose, por não ter compromisso com nenhuma corporação, é capaz de tocar nas feridas.

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